POLÍTICA

A direita raivosa sobreviverá sem Lula para atacar? Infelizmente, sim...

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Foco agora será o combate à “imoralidade” e à “bandidagem”. Está difícil manter a fé num país mais justo e menos irracional...

A direita raivosa sobreviverá sem Lula para atacar? Infelizmente, sim...

A luta continua: depois de abater Lula, extrema-direita já tem outros alvos (Foto: Márcio Juliboni)

Uma parte dos analistas políticos afirma que um efeito colateral da derrocada de Luiz Inácio Lula da Silva será o encolhimento da extrema-direita, hoje personificada pelo deputado federal, ex-militar e presidenciável Jair Bolsonaro. Por esse ponto de vista, a direita raivosa, tal qual um pixuleco, foi inflada pela grande rejeição dos brasileiros à corrupção revelada pela Lava Jato, que atingiu em cheio Lula e o PT, culminando no impeachment de Dilma Rousseff. Agora, com Lula abatido pela condenação em segunda instância, os extremistas de direita não teriam mais um Grande Satã com quem polarizar e, por isso, tenderiam a se dispersar e a moderar seu discurso. Se isso ocorresse, seria uma bênção, mas, infelizmente, há sinais de que a extrema direita apenas mudará de foco – e continuará deixando um rastro de baba por onda passa.

Primeiro, é preciso que nos lembremos do básico: a ultradireita já existia antes de Bolsonaro ou do movimento pró-impeachment de Dilma. Tradicionalmente, ela apoia-se em duas bandeiras: a defesa dos “bons costumes” e o combate duro à criminalidade. Para lutar pelos “bons costumes”, a direita radical recorre sobretudo à moral religiosa, seja a da católica mais conservadora, como a Opus Dei, seja a da evangélica, representada por figuras como os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano. Já a segurança pública é vista como uma questão policial, e não como resultado de séculos de injustiça social. Nesta linha, os direitistas defendem o aparelhamento das polícias, o recrudescimento das leis e o endurecimento das abordagens. É desse ramo que vem Bolsonaro. Não é por acaso que esses grupos ficaram conhecidos, no Congresso como as bancadas da Bíblia e da Bala, respectivamente.

Oremos...

Nos últimos anos, os governos petistas foram identificados como os grandes alvos das turmas da Bíblia e da bala. A primeira, porque encarava as políticas de gênero, diversidade sexual e liberdades civis (como a legalização do aborto e a união homoafetiva), como um grande atentado à moral e aos bons costumes. Para eles, o pecado não é um estuprador engravidar uma mulher; o pecado é a mulher querer interromper a gravidez. Deus Todo Poderoso, afinal, nunca se dá ao luxo de dispensar mais uma alma que possa se ajoelhar perante Ele e O glorificar – mesmo que seja o fruto de uma violência contra a mulher. O discurso moralista também passou pela corrupção – roubar é um dos pecados expressamente vedados pelos Dez Mandamentos, pouco importa o rastro de crimes contra os cofres públicos deixado por evangélicos como Eduardo Cunha.

Já o pessoal da bala não tolerou o avanço das políticas de direitos humanos, mas encontrou, mesmo, um prato cheio na corrupção revelada pela Lava Jato. Bandido bom é bandido preso (para se dizer o mínimo, segundo eles). Logo, se Lula e o PT roubaram, devem ir para a cadeia. Quem veste uma capa de super-heróis para combater criminosos, como a bancada da bala se autoenxerga, não pode tolerar malfeitos onde quer que estejam. E dá-lhe Pixuleco...

Keep the Faith...

Se a ultradireita já existia antes de ser assanhada pela Lava Jato, é improvável que acabe com a condenação e a prisão de Lula. Isto porque ela já escolheu outros alvos. O protesto histriônico contra a mostra Queermuseum, patrocinada pelo Santander em Porto Alegre, é uma prévia do que se transformará a extrema-direita daqui para a frente. Não é por acaso que o protesto foi liderado pelo MBL (Movimento Brasil Livre), do "líder" Kim Kataguiri. Agora que tirou seu conservadorismo do armário, o MBL e outros grupos de direita encamparão a defesa da moral e dos bons costumes com cada vez mais fanfarronice (claro que, só depois do Carnaval, porque ninguém é de ferro e a direita também quer beijar muito...).

Além disso, o aumento da violência urbana dará cada vez mais munição para o discurso de repressão policial e intervenções armadas. Diante da crise de Estados como o Rio de Janeiro, da chacina em Fortaleza neste fim de semana, entre outros, a extrema-direita explorará cada vez mais o justificado medo da população a seu favor. Qualquer abordagem para resolver a criminalidade que fuja à lógica de guerra sem piedade será atacada como defesa esquerdista dos bandidos. Concluindo: para os radicais de direita, a queda de Lula foi apenas o primeiro passo. A luta da direita raivosa continua – infelizmente, para quem ainda tem fé em construir um país mais justo e racional...