ECONOMIA

A economia conseguirá eleger Henrique Meirelles presidente?

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Num país sem rumo, como o Brasil, até a inércia é capaz de induzir alguma reação da economia - o que há de suor do ministro nisso?

A economia conseguirá eleger Henrique Meirelles presidente?

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

À medida que 2017 termina, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, fica cada vez mais soltinho no figurino de pré-candidato ao Palácio do Planalto no ano que vem. A seu favor, o ex-presidente do BankBoston e do Banco Central evoca o respeito do mercado (algo de que pouquíssimos auxiliares de Michel Temer podem se gabar), os bons números da economia e a imensa falta de um candidato consistente que ocupe o centro político, já que a polarização entre esquerda e direita parece se consolidar em torno de Luiz Inácio Lula da Silva e de Jair Bolsonaro. Pensando bem, é lógico e coerente que alguém nestas condições se sinta na hora e no lugar certos para disputar a eleição. Mas, até onde se pode enxergar, a economia não será nenhum elixir mágico capaz de transformar Meirelles em presidente – e há bons motivos para isso.

O primeiro é: quem disse que Meirelles realmente tirou o Brasil da recessão? Sim, é verdade que há números mostrando que a retração econômica terminou, com direito a declaração formal do Codace, o grupo de estudos da FGV especializado em crises. Também é verdade que a taxa de desemprego está recuando, que a indústria voltou a crescer após mais de três anos de quedas mensais, que as vendas de automóveis subiram, que o PIB deve encerrar o ano com ligeira alta, após dois tombos, que a inflação está controlada e os juros voltaram a um dígito. Mas, há um abismo na forma como o povo comum percebe, no seu cotidiano, o andamento da economia, e como ela é mostrada nas planilhas de Excel e nos gráficos caprichados exibidos pelos gabinetes de Brasília e em reuniões com investidores.

Olhe com calma

No trimestre encerrado em setembro, a taxa de desocupação apurada pelo IBGE recuou para 12,4%, ante os 13% do período de abril a junho. É um alento, mas nada que torne Meirelles o salvador da Pátria. Ainda há nada desprezíveis 12,9 milhões de pessoas em busca de alguma renda. Por outro lado, é muito baixa, a qualidade dos empregos gerados. Do pouco mais de 1 milhão de brasileiros que arrumaram um “emprego” nos últimos meses, 288 mil não têm carteira assinada; e outros 402 mil trabalham “por conta própria”. Resumindo: os primeiros aceitaram trocar os direitos trabalhistas pela renda (afinal, contas vencem todo mês). Sem carteira assinada, fica difícil comprar algo a prestação – e os bens de consumo duráveis são adquiridos, em sua maioria, assim. Já os “por conta própria” escondem a perversidade da “pejotização” – aquela manobra do empregador que obriga o funcionário a abrir uma firma e lhe passar notas fiscais, apenas para reduzir encargos sobre a folha de pagamento. Logo, no limite, também é alguém sem benefícios, nem direitos.

Por setor, há cerca de 18 milhões de pessoas empregadas na indústria em geral e na construção civil. Será difícil, para Meirelles, convencê-las de que as coisas “melhoraram”, desde que ele assumiu a Fazenda. É verdade que a indústria brasileira parou de recuar, mas quem depende dessas áreas para viver dificilmente dirá que uma alta acumulada de 0,4%, nos últimos 12 meses até setembro, refresca alguma coisa. No máximo, dirá que parou de piorar, dará um meio sorriso desafiador e arrematará com um “vamos ver daqui pra frente, se melhora mesmo.” Não se pode esquecer, ainda, dos quase 11,5 milhões de funcionários públicos (incluindo militares). Com o governo federal e vários Estados e municípios quebrados, atrasando salários, sucateando condições de trabalho e parcelando benefícios, como Meirelles dirá que está tudo correndo na direção correta?

Mas, suponhamos que ele consiga pintar um quadro bonito deste momento, às custas de muita marquetagem. Um candidato que se preze precisa dizer o que fará em quatro anos de mandato – e o ministro da Fazenda não tem propostas muito populares na manga. Já é dado como certo que a reforma da Previdência será um puxadinho mequetrefe. O grosso do trabalho ficará para o próximo governo, para desespero de quem assumir. Não é à toa que Meirelles tenta, a todo custo, aprová-la agora.

Ouça com calma

Imagine como será difícil, para o ex-banqueiro, convencer o eleitor médio (o brasileiro comum, que pega ônibus para ir trabalhar e vive com dinheiro contado) de que mexer nas regras da aposentadoria é algo para o seu próprio bem. Idem, em se tratando de reforma trabalhista. Para os funcionários públicos e seus familiares, também não será nada engraçado ouvir que as despesas federais devem ser controladas, e que o teto de gastos deve ser mantido. Na prática, o economês significará congelamento de salários, ou reajustes pífios, o que irritará muita gente na máquina pública.

Tudo somado, temos eleitores com a sensação de que a economia não melhorou – apenas parou de piorar, se tanto. E que Meirelles tem pouco ou nenhum mérito nisso. Afinal, em terreno baldio também cresce mato, e ninguém sensato se gaba de ser seu jardineiro. Num país sem rumo, como o Brasil contemporâneo, até a inércia é capaz de induzir alguma reação da economia. O que há de suor de Meirelles nisso tudo? Ele que se explique aos brasileiros – e tente a sorte nas urnas...