POLÍTICA

A esquerda está defendendo Bolsonaro?

Author

Reportagem da Carta Capital sugere que pesquisas minimizam votos em Bolsonaro para favorecer Alckmin... haja imaginação

Mão amiga: a esquerda está enchendo a bola de Bolsonaro? (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)
Mão amiga: a esquerda está enchendo a bola de Bolsonaro? (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)

Os grandes institutos de pesquisa estariam, deliberadamente, divulgando números de intenção de voto em Jair Bolsonaro inferiores aos realmente obtidos. A suspeita foi divulgada nesta sexta-feira (18) no site da Carta Capital. O ardiloso objetivo, segundo a reportagem, seria beneficiar o tucano Geraldo Alckmin, o queridinho do mercado que é sumariamente ignorado pelos eleitores, para desespero do dólar e da bolsa. As bases em que o texto foi construído são bastante frágeis (duas pesquisas feitas nos maiores bolsões bolsonaristas do país) e uma aspas extraída (e bastante, mas bastante mesmo, descontextualizada) de uma entrevista a um grande jornal. De qualquer modo, a pergunta é válida: a esquerda está dando uma forcinha para Bolsonaro?

Para responder a isso, é preciso olhar duas coisas. A primeira é a própria reportagem da Carta Capital. Como sempre, os pressupostos e os subentendidos devem ser analisados com lupa. O primeiro argumento explícito que a sustenta é que “um economista de uma das grandes consultorias do ‘mercado’ em São Paulo contou à reportagem que, recentemente, viu duas pesquisas para consumo de endinheirados e que ambas mostravam Bolsonaro acima dos 16%” – o patamar médio de votos do ex-militar, segundo os institutos tradicionais. Mas, eis que o próprio texto se encarrega de entregar o porquê: uma foi feita em São Paulo, e a outra, no Rio Grande do Sul.

É a amostra, estúpido!

Jesus amado... não é preciso ser um gênio da estatística e da política nacional para saber que tais pesquisas têm um grave viés de amostragem: foram feitas em dois dos maiores redutos bolsonaristas do país. Já em setembro passado, o Instituto Paraná Pesquisas mostrava Bolsonaro entre 21,9% e 23,8% de apoio no Rio Grande do Sul, conforme os adversários apresentados. Em São Paulo, a dianteira é mais apertada e varia segundo os rivais. No melhor cenário, o ex-capitão do Exército aparece com 16%, ante 15% de Alckmin. De qualquer modo, como nos previnem os bons filósofos e cientistas (os bons, não os enviesados), o problema do pensamento indutivo é generalizar um resultado que não pode ser generalizado. Em bom português: quem disse que sondar dois Estados com forte presença de bolsonaristas representa um todo chamado Brasil? Ora, ora, ora...

O segundo ponto é a citação de um trecho da entrevista de Marcia Cavallari, diretora executiva do Ibope, publicada pelo Estadão na segunda-feira (14). Eis como a reportagem da Carta Capital se refere a ela: “De qualquer forma, parece haver algo estranho no mundo das pesquisas, a julgar pelo que disse a diretora-executiva do Ibope, Marcia Cavallari, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo da segunda-feira 14. Ela estranha a quantidade de pesquisas na praça. ‘Não se sabe que interesse haveria em um instituto ficar gastando seus recursos com pesquisas. É um indício de algo esquisito.’”

Entrelinhas

Como bem sabem os teóricos de comunicação (os bons, não os ideólogos), decifrar um texto exige cumplicidade entre leitores e emissores. Uma série de subentendidos, pressupostos e não-ditos dizem muito. Eis que o parágrafo sugere que uma fonte qualificada, a diretora de um dos maiores institutos de pesquisa do país, questiona a veracidade das próprias pesquisas. Arremata dizendo que, raramente, um instituto banca a própria sondagem e, se o faz, é algo a ser investigado. Como este é o último parágrafo do texto da reportagem da Carta Capital, deixa-se o leitor com a pulga atrás da orelha: “malditos institutos... prejudicam Bolsonaro para favorecer Alckmin!”.

Mas vamos olhar de novo, e com calma. Primeiro, vamos direto à fonte destas aspas. No texto original, essa declaração é dada após um raciocínio muito mais complexo do que a citação fora de contexto nos induz a pensar. Em tempos de fake news, a argumentação começa com uma pergunta sobre o peso da desinformação sobre o voto. Em linhas gerais, Cavallari diz que as pesquisas mostram que os eleitores estão mais preocupados com notícias falsas. Que eles acreditam que a internet é o meio mais propício para sua divulgação e, por isso, sentem-se mais seguros em se informar pelas mídias tradicionais. Que, por fim, o interesse por política está maior, sobretudo nas classes mais escolarizadas e urbanizadas, mas também há interesse nas classes mais baixas.

No contexto

Em seguida, o jornal lhe pergunta como um eleitor pode avaliar a confiabilidade de uma pesquisa eleitoral. Ela começa, explicando que toda pesquisa precisa ser registrada no TSE e deve disponibilizar sua metodologia, cliente, preço etc. Alerta para pesquisas cujo preço é muito inferior ao indicado para a complexidade do trabalho. É neste momento que ela introduz a informação de que há muitos novos institutos na praça, desconhecidos do público e do próprio mercado. Ela cita que, até 8 de abril, 40 das 88 pesquisas registradas eram de empresas não-filiadas à associação de institutos de pesquisa. E são estas empresas, e não as tradicionais, que colocam os trabalhos no próprio nome.

Então, a pergunta seguinte e lógica é se é algo incomum que um instituto banque o próprio trabalho. Ato contínuo, Cavallari responde que “essa coisa de fazer tudo por conta própria é estranha.” Admite que o Ibope já o fez, mas “é raro”. E é aí que ela retoma a ideia com a frase “Mas é estranho fazer várias pesquisas com recursos próprios.” Mantendo a linearidade da entrevista, o jornal indaga se registrar a pesquisa em nome do próprio instituto seria um indício de ocultar, deliberadamente, o interesse do cliente. De modo coerente, Cavallari diz que esta é a única coisa a se deduzir. É então que ela menciona a frase reproduzida pela Carta Capital: “Há que se deduzir isso. Não se sabe que interesse haveria em um instituto ficar gastando seus recursos com pesquisa. É um indício de algo esquisito.”

Segundas intenções?

Entendeu, caro leitor, como a reportagem da Carta Capital descontextualiza e nos induz a pensar aquilo que não está na entrevista original? Não são os grandes institutos que estão tirando dinheiro do bolso para montarem pesquisas supostamente manipuladas em prol de Alckmin e contra Bolsonaro. São empresas incipientes que não se sabem de onde saíram, quem as banca etc. Sinceramente, suspeito que esses institutos neófitos podem estar a favor, e não contra, o ex-militar. Lembro-me de uma pesquisa trombeteada pelo site O Antagonista (sim, aquele lido pela TFP e pela Opus Dei) em que Bolsonaro aparecia com incríveis 34% em novembro! Foi feita por um obscuro Instituto Vertude. Uma rápida visita ao seu site mostra que a transparência passa longe dele. Há apenas um telefone de contato, não há endereço, nem nomes, nem assessoria, nem nada...

Se a Carta Capital está, mesmo, preocupada com a manipulação de pesquisas, prestaria um excelente serviço se investigasse tais empresas, em vez de alimentar teorias de conspiração. A única coisa que se pode presumir é que há interesse da revista de manter o clima de polarização. Inocular o medo de que Bolsonaro é maior do que se pensa seria uma forma de levá-los a querer a liberdade de Luiz Inácio Lula da Silva, o único supostamente em condições de abatê-lo. De quebra, a revista também chuta um senhor cachorro morto, o tucano com voo de galinha.

O que a revista não percebe (ou percebe, mas não dá bola) é que, ao insinuar que Bolsonaro tem mais votos do que tem mesmo, só o ajuda. Nunca se deve esquecer de que, no Brasil, o voto útil já determinou várias eleições. Há um tipo de brasileiro que adora votar em quem “vai ganhar”, apenas para suprir o próprio complexo de inferioridade. Melhor faria a revista, se se empenhasse em investigar profundamente a vida e a obra de Bolsonaro. Mas fazer jornalismo sério dá trabalho...