POLÍTICA

A hipocrisia dos “cidadãos de bem”: a morte dos pobres só lhes importa agora

Author

Para protestar contra o “exagerado destaque da mídia” para a morte de Marielle, “cidadãos de bem” descobrem que o Brasil é violento para os mais pobres

A hipocrisia dos “cidadãos de bem”: a morte dos pobres só lhes importa agora
Solidariedade de conveniência: "cidadãos" denunciam violência contra mais pobres para anular repercussão da morte de Marielle (Foto: Fernando Frazão/Ag. Brasil)

Desde que Marielle Franco foi executada, parte do debate foca no suposto “exagero” da cobertura da imprensa sobre o caso. Os argumentos, claro, são lançados pelos “cidadãos de bem”, esse fenômeno brasileiro que ainda precisa ser estudado conclusivamente. Dizem não entender por que, raios, um entre tantos assassinatos diários no Rio de Janeiro foi escolhido pela mídia para receber tanta atenção. Lembram do menino de cinco anos que testemunhou, no mesmo dia, o assassinato do pai num assalto à mão armada. Estou passando por um “debate” desses justamente agora, num grupo de Facebook chamado “Jornalismo e Democracia” (sic). Perplexos, alguns participantes não entendem o porquê.

Uma “colega” de profissão (sic), formada na mesma faculdade que eu, afirma; “no momento, esse consumidor da comunicação está comentando nas redes sociais dos jornalistas: ‘parem de chorar por Marielle, ela teve apenas 50 votos no Complexo da Maré, sua própria base. Olhem para nós: perdemos nosso filho, nossa vizinha para a violência, e vocês nos ignoram’”.

De jornalista para jornalista, respondi-lhe que ela, simplesmente, havia se esquecido das aulas sobre critérios de noticiabilidade. Do ponto de vista da tragédia humana, nenhuma morte é mais ou menos importante que a outra. O filho que viu o pai morrer carregará, por toda a vida, uma dor irreparável, um trauma pesado e arenoso, e só podemos desejar e torcer para que os demais familiares, ainda que sofrendo pelo luto, consigam apoiá-lo e ampará-lo. Mas a morte de Marielle é uma notícia mais relevante, por vários motivos: simplesmente, coloca em risco a intervenção federal no Rio; revela conexões entre extravio (ou roubo? Ou participação?) de munição da Polícia Federal e o crime; coloca sob suspeita o Batalhão da PM de Acari e por aí vai.

Solidariedade de conveniência

Mas o ponto que mais incomoda não é o questionamento sobre a cobertura jornalística (de qualquer modo, pertinente numa sociedade democrática), mas a hipocrisia falaciosa por trás dela. Os “cidadãos do bem” acusam a mídia de não cobrir com igual ênfase a morte dos cidadãos comuns, acusam a sociedade de não se mobilizar com igual força contra a violência dos pobres mortais. É hipócrita. É falso. A imprensa denuncia diuturnamente a violência policial. Esteve entre os grupos de pressão para que se esclarecesse o desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza, em julho de 2013, após ser detido por policiais na Rocinha. Segue vigiando e denunciando abusos.

A hipocrisia consiste, justamente, nisso: depois de anos dando as costas à violência que maltrata os mais pobres, aos assassinatos banais de pessoas comuns, os “cidadãos de bem” convenientemente descobriram a tragédia que esses casos representam. Não me consta que os “cidadãos de bem” tenham saído às ruas para pedir a solução do caso de Amarildo. Nem que tenham feito marchas contra estupros coletivos de adolescentes. Nem que tenham realizado campanhas em redes sociais contra a morte de Benjamin, de 1 ano e 7 meses, vítima de uma bala que o atingiu no colo da mãe, durante um tiroteio no Complexo do Alemão. Como sempre, os “cidadãos de bem” lembram-se do Brasil, apenas quando lhes é conveniente.