POLÍTICA

A natureza não é nem marxista, nem capitalista. Por favor, entenda

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Nos 200 anos do nascimento de Marx, seguidores e críticos retomam um Fla-Flu sem sentido diante do que importa: o mundo não é nem um, nem outro

Mortadelas e coxinhas de todo o mundo, uni-vos: a escassez de recursos não toma partido de ninguém (Imagem: reprodução)
Mortadelas e coxinhas de todo o mundo, uni-vos: a escassez de recursos não toma partido de ninguém (Imagem: reprodução)

No sábado (5), comemoraram-se os 200 anos do nascimento de Karl Marx. A menos que você seja de Marte, é improvável que nunca tenha ouvido seu nome – seja positiva ou negativamente. A data foi uma oportunidade para, previsivelmente, seguidores e críticos digladiarem-se mais uma vez. Em linhas gerais, os primeiros apontam para a extrema concentração de renda e a crescente deterioração das condições de vida de bilhões de pessoas para mostrar que o capitalismo é nocivo. Basta lembrar que, em 2017, 82% de toda a riqueza criada no mundo ficou nas mãos de 1% da população global, e que o patrimônio dos seis brasileiros mais ricos corresponde ao dos 100 milhões mais pobres. Já os críticos afirmam que o fracasso da URSS, com os crimes stalinistas, a fome e o atraso tecnológico, fala por si. De minha parte, penso sinceramente que não há vitoriosos nesta disputa: Marx e os capitalistas perdem para um inimigo comum – a escassez.

Há, provavelmente, mais definições sobre o que é economia, do que economistas no mundo. É natural, já que não se trata de uma ciência exata, ao contrário do que muitos supõem. Mas a minha definição favorita, por considerá-la a mais realista, é a do britânico Lionel Robbins (1898-1984): "a economia é a ciência que estuda as formas de comportamento humano resultantes da relação existente entre as ilimitadas necessidades a satisfazer e os recursos que, embora escassos, se prestam a usos alternativos." Traduzindo: a economia é a forma como a sociedade lida com a escassez – de água, de solo, de recursos minerais, de alimentos, até mesmo de pessoas para trabalhar nesta ou naquela área.

É da vida

Para mim, pelo menos, não se trata apenas de uma definição grandiloquente para ter impacto retórico. A escassez é parte inerente do sistema econômico e obriga a sociedade a escolher, com mais ou menos consciência, o que fazer com os minguados recursos. Aquele hectare de solo deve ser usado para plantar milho, arroz, soja ou criar gado? Aquele litro de água deve irrigar uma plantação, matar a sede humana ou resfriar aço? Os recursos naturais, embora nos passem a falsa impressão de serem abundantes (ou até infinitos), são um cobertor curto. Como decidir o que fazer com eles? E, sobretudo, como determinar quem terá direito a usufruí-los?

Após milhões de anos de evolução psicobiosocial, a humanidade só tem duas respostas à mão: ou distribuímos de modo igualitário, ou de modo desigual. O primeiro é a base do comunismo proposto por Marx: após abolir o capitalismo por meio da Ditadura do Proletariado, que evoluiria para o comunismo (o estágio histórico em que as próprias classes sociais deixariam de existir), a distribuição de bens e serviços seguiria sua conhecida máxima: “de cada um, conforme suas capacidades, para cada um, conforme suas necessidades.” Nas minhas aulas de introdução à economia, costumo dizer aos meus alunos que foi neste ponto que entrei em crise com o comunismo.

Na tentativa de promover a igualdade, a URSS se transformou numa economia planificada, mas o diabo de planejar quantos pares de sapato e quantos quilos de arroz um soviético consumiria por ano esbarra num imenso e constrangedor problema: São Pedro não é comunista. Ninguém controla o básico: as variações climáticas que redundam em anos de fartura ou escassez. A menos que alguém desse uma carteirinha do Partido Comunista ao santo, nenhuma planilha da burocracia soviética seria capaz de assegurar que secas draconianas, enchentes diluvianas, pragas bíblicas, máquinas paradas por falta de peças e trabalhadores ausentes por doença comprometessem a produção tão milimetricamente prevista.

Natureza apartidária

A consequência não poderia ser outra, além de uma progressiva escassez, fome e deterioração das condições de vida. Lembro-me de ler, quando o Muro de Berlim ruiu em 1989, um artigo provocador, mas muito verdadeiro, do já falecido Paulo Francis, no qual dizia que a União Soviética conseguira enviar homens à Lua, mas nunca fizera uma máquina de lavar que funcionasse decentemente. Era uma triste verdade para mim, cuja formação é de esquerda. Mas a verdade não muda, simplesmente porque nos desagrada...

Restou-nos, então, o capitalismo e, com ele, a segunda forma de administrar a escassez: a distribuição por eficácia. Este é o método que, em nossos dias, confunde-se com a meritocracia: quem pode mais fica com a maior fatia do bolo. Os mais fortes, os mais inteligentes, os mais espertos, os mais empreendedores... pelo menos, é assim que gostam de se autorrepresentar. Mas, à medida que a escassez avança e a falta de produtos é traduzida em preços altos, menos gente tem acesso a eles, mesmo que seja “inteligente”, “forte” ou “esperto”. Novamente, precisamos nos lembrar do básico: a natureza não derrotou o comunismo, porque é capitalista. A natureza simplesmente não tem partido. De que servirá todo o ouro do mundo, se o primeiro trilhardário do mundo não tiver sequer um litro de água para comprar? Você pode até achar que Marx deve ser ignorado. Mas isso não torna, automaticamente, Adam Smith e Milton Friedman mais corretos.