ECONOMIA

Adianta ser rico num Brasil pobre? Concentração de renda é ruim para todos

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Maior parte da “elite” brasileira não passa de uma classe média deslumbrada, quando comparada à de países desenvolvidos – e por sua própria culpa

Adianta ser rico num Brasil pobre? Concentração de renda é ruim para todos

Exclusão aqui, desrespeito lá fora: todos sofrem com a desigualdade (Foto: Cícero R. C. Omena/Flickr)

Até o asteroide 3200 Phaeton, que passará “raspando” pela Terra em meados de dezembro, sabe que o Brasil é um dos países mais desiguais deste indigente planeta. Mas o tamanho da concentração de renda foi atualizado nesta quarta-feira (29) pelo IBGE. Segundo o instituto, os 10% mais ricos concentram 43,4% da renda nacional, enquanto os 10% mais pobres ficam um fiapo de risíveis 0,8%. Quando se olha para o topo do topo da pirâmide, constata-se que a renda dos 1% mais ricos é 36 vezes maior que a média dos 50% mais pobres. Trata-se de uma desigualdade digna de qualquer caricatura de república de bananas. Você, caro leitor, pode agora estar se gabando de pertencer a essa nata abonada e tascar um “invejosos, deixem de mimimi” e delicadezas do gênero. Mas, vamos ser francos: adianta ser rico num país pobre? Você é realmente rico, ou é apenas o menos pobre dos pobres?

Antes de mais nada, o que é ser rico no Brasil, segundo o IBGE? Para começar, a renda média mensal desse 1% é de pouco mais de R$ 27 mil. Sim, é um rio de dinheiro, se comparado com os parcos R$ 73 mensais dos 5% mais pobres. Sim, é verdade, também, que médias englobam números díspares, diluindo na mesma conta o dono de uma microempresa e os herdeiros do Itaú. Mas vamos colocar a coisa em perspectiva: há muito mais microempresários que herdeiros de bancos no país; logo, a concentração de ricos está da média para baixo, e não da média para cima. Com o dólar a R$ 3,2, isso dá US$ 8,4 mil por mês. Como o salário médio mensal de um americano, em agosto, era de US$ 3,1 mil, a “elite” brasileira, em geral, não passaria de uma “classe média alta” por lá. Logo, sejam mais humildes, por favor. Como diria uma amiga: “quem são vocês na night global?” A resposta poderia ser: aqueles que se acham, mas vão esperar lá fora na fila com todo mundo, até que algum leão de chácara e uma hostess decidirem se entram ou não.

Vergonha alhures

Não é à toa que essa “elite” sente raiva e vergonha de ser brasileiro no exterior. Basta uma pequena conversa com o oficial da alfândega americana – ou qualquer lugar sério – para que os deslumbrados tupiniquins caiam na real: vêm de um país desrespeitado por seus próprios deméritos. Um deles, aliás, é a grande concentração de renda e o total descompromisso da elite em ajudar a desenvolver o Brasil.

Voltam de suas férias maldizendo o governo e o povo. Juram que, assim que puderem, obterão aquela cidadania estrangeira a que têm direito por um bisavô que sequer conheceram – um pobre imigrante semianalfabeto que migrou com as roupas do corpo e foi trabalhador braçal, como tantos que agora desdenham pelas ruas. Arrumarão as malas e se mudarão para o primeiro mundo. Praguejam contra a violência, a insegurança, a má educação das pessoas pelas ruas, a falta de lojas sofisticadas, a burocracia para tocar os negócios, a corrupção pública e os jeitinhos privados.

Só não percebem – ou desconsideram mesmo – que boa parte desses problemas que os apoquentam tem o dedo deles próprios. Rugindo contra programas de redistribuição de renda, tachando programas de inclusão social de coisa de comunista, latindo contra qualquer desembolso de dinheiro público para serviços como saúde e educação, essa nata (e seus vassalos) pare sua própria desonra. Sem apoiar o desenvolvimento do país, não terá mão de obra qualificada para expandir seus negócios, continuará convivendo com a violência e a insegurança, verá corruptos se elegerem com votos de quem não tem instrução escolar e é enganado por populistas. Mas o pior de tudo, claro: passará vergonha, novamente, na alfândega de algum país desenvolvido nas próximas férias. Será o fim do mundo...