LAVA JATO

Aécio Neves saiu pela porta dos fundos (mas voltará pela da frente?)

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Se o Brasil fosse um país sério, ele nem pensaria nisso, mas sendo o Brasil o que é... é claro que tentará

Aécio Neves saiu pela porta dos fundos (mas voltará pela da frente?)

É o fim de Aécio? Só os eleitores mineiros dirão (Foto: George Gianni/Divulgação/Facebook)

A vaia de militantes tucanos a Aécio Neves, durante sua rápida e tumultuada passagem pela convenção nacional do PSDB neste sábado (09), não poderia ser mais emblemática. O senador que, em 2014, chegou a ameaçar concretamente a reeleição de Dilma Rousseff e a então supremacia petista no Palácio do Planalto, saiu pela porta dos fundos do centro de convenções para entrar na história como um grande exemplo de como se queimar politicamente com tudo e todos. Brigado com a cúpula do partido, ignorado por grão-tucanos, hostilizado pela militância, acuado pela Lava Jato e desmoralizado diante dos brasileiros, Aécio tem muito pouco em que se agarrar para se reerguer. Se o Brasil fosse um país sério, ele nem pensaria nisso, mas sendo o Brasil o que é... é claro que tentará.

Há dois problemões para Aécio resolver: o político e o judicial. Quanto ao político, os passos são intuitivos, mas difíceis. Primeiro, ele precisa mostrar que ainda tem força em Minas Gerais, seu reduto eleitoral. A demonstração mais convincente seria conseguir se reeleger senador em 2018 e emplacar seus aliados para cargos importantes, como o governo do Estado. O moral de Aécio entre os mineiros é uma grande incógnita. Ele jura que as pesquisas lhe asseguram mais oito anos no Senado. Há quem cogite um voo mais arriscado e o lance para o Palácio Tiradentes. Há quem recomende a estratégia com menor chance de erro: uma cadeira na Câmara dos Deputados. Sua escolha e, sobretudo, seu sucesso mostrará o quão forte ainda é.

Das três opções, o governo de Minas é, obviamente, a que lhe daria mais poder, pelo peso do Estado no cenário nacional. Em compensação, trata-se de uma cadeira cheia de pregos: as finanças mineiras estão destroçadas e a previsão é que as contas estaduais só voltem a fechar no azul em 2020. Até lá, o governador, qualquer que seja, terá de rebolar entre as legítimas demandas da população por serviços públicos decentes e a falta de dinheiro. Nada melhor do que prometer muito, numa eleição, e não entregar nada para queimar o filme de um político. Mas até para isso, há ressalvas. É preciso lembrar que Aécio perdeu para Dilma, no primeiro e no segundo turno da eleição presidencial de 2014, em Minas Gerais. Naquele mesmo ano, seu candidato ao governo, Pimenta da Veiga, foi derrotado pelo petista Fernando Pimentel.

Plano de emergência

Assim, tornar-se governador é um plano para lá de arriscado. O perigo aumenta, quando se lembra que Aécio precisa de um mandato, qualquer que seja ele, não por sua vocação para servir o país, mas para garantir foro privilegiado. Só assim, o tucano conseguirá manter as investigações da Lava Jato no STF e sonhar com uma possível absolvição, depois de ser grampeado pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, um dos donos da JBS. De sua parte, o Supremo já mostrou que pode pegar leve com ele: quem não se lembra da marmelada com que os magistrados lhe presentearam, permitindo que o Senado desse a última palavra quanto à suspensão de seu mandato e seu recolhimento noturno?

Assim, garantir mais oito anos no Senado ou, em último caso, aceitar um “rebaixamento” para deputado federal são as estratégias mais viáveis para Aécio garantir a imunidade parlamentar. Se o fizer, será, direta ou indiretamente, uma confissão de que está mais preocupado consigo mesmo, do que com as grandes questões nacionais. É verdade que há alguém que pode impedi-lo: os eleitores mineiros. Mas o Brasil, infelizmente, é cheio de exemplos de pessoas que deveriam estar fora da política e que voltam pelas urnas. Está aí Fernando Collor de Mello como prova. Que Minas não repita o erro de Alagoas.