ECONOMIA

Afinal, teremos mais empregos em 2018?

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Empresas só abrem uma nova vaga de trabalho, quando já esgotaram todas as outras opções: pagar horas extras, aumentar as margens de lucros etc...

Afinal, teremos mais empregos em 2018?

Há vagas: precisa-se de governo e economistas sinceros (Foto: Banksy/Divulgação)

Com 12 milhões de desocupados no país após dois anos de recessão, não há dúvidas de que a criação de empregos é uma necessidade real. O que incomoda, porém, é o simplismo de cartilha ginasial com que o governo e parte dos economistas e da imprensa trata do assunto. Tudo se resumiria à soma de dois fatores: a reforma trabalhista e o crescimento econômico – e ambos se encaixariam magicamente no ano que vem. O último relatório Focus do Banco Central, publicado nesta segunda-feira (18), mostra que, na média, o setor financeiro projeta uma alta de 2,64% do PIB em 2018. O número, por si só, já garantiria a abertura de vagas e o fim dos temores da população. É claro que o presidente Michel Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, se agarram a esse discurso com a fé de jihadistas. O primeiro, porque precisa de algo para justificar seu pífio governo. O segundo, porque sonha ser o próximo presidente. O problema, como sempre, é que ambos contam com verdadeiros ovos de avestruz dentro de galinhas.

Primeiro, a premissa mais simples: a reforma trabalhista gerará empregos. Vai mesmo? Até onde se sabe, não há nenhum artigo, na nova lei, obrigando as empresas a contratarem uma cota mensal de desempregados. Tudo o que a lei faz é: a) reduzir a insegurança jurídica de contratos de trabalho, ou seja, acalmar os patrões, aos lhes garantir que processos trabalhistas serão mais difíceis (basta ver a queda do número de novas ações, depois que os ex-empregados se tornaram passíveis de indenizar a companhia por má-fé); b) facilitar a contratação e a demissão, criando ou regularizando situações como a do trabalho intermitente.

Lei e delay

A reforma trabalhista não incentiva magicamente a criação de novas vagas. Apenas sinaliza aos empregadores que, caso queiram contratar mais gente, será mais fácil lidar com seus direitos e menos arriscado enfrentar a Justiça. Além disso, a julgar pelas primeiras reações, o tiro pode ter acertado o pé do governo. Basta ver como o Planalto tenta mostrar como as demissões em massa anunciadas pelas universidades não são um efeito direto da reforma...

Assim, voltamos ao básico: empregos só são gerados, quando a economia cresce. Mas... não é isso que Temer e Meirelles estão dizendo? Com 2,64% de alta do PIB prevista para 2018 (Meirelles, aliás, diz que cresceremos 4%), por que esse jornalista agourento fica gastando saliva com isso? Bom... eis aí outro grande ovo de avestruz ainda dentro da ave. A relação entre recuperação econômica e geração de empregos não é tão proporcional nem direta, quanto o governo e parte dos economistas nos dizem.

Máquinas primeiro

Para que o aquecimento da economia se transforme em novas vagas, é preciso, primeiro, que as empresas zerem sua ociosidade. Uma máquina que, hoje, opera com 50% de sua capacidade num único turno, monitorada por um único funcionário, começará a “trabalhar” muito mais, antes que requisite outros empregados. Primeiro, precisará chegar o mais perto possível de sua plena capacidade naquele turno. Depois, a firma pagará horas extras para o funcionário já contratado, a fim de cumprir os pedidos excedentes. Só depois, o patrão pensará se vale a pena abrir um novo turno na fábrica, contratando, assim, outro funcionário. Antes, porém, passará pela tentação de, pura e simplesmente, elevar sua margem de lucro diante da demanda aquecida.

Apenas em último caso, contratará um novo funcionário para operá-la noutro turno. Isto, se tiver certeza de que a demanda é sustentável – ou seja, que a retomada do Brasil não é fogo de palha. E como anda o nível de ociosidade da indústria? Obviamente, elevado. Segundo a CNI, que representa o setor, as empresas ocupavam apenas 77% de sua capacidade instalada em outubro (números mais recentes), um patamar historicamente baixo.

Só em último caso

O mesmo raciocínio vale, nas devidas proporções, para qualquer setor da economia. Uma manicure só contratará uma assistente para o salão, quando 100% de seu tempo útil estiver reservado, ela já tiver reajustado seus preços e, sem outra opção, garantir que a nova funcionária não passará a maior parte do tempo sem fazer nada. O dono de um pequeno restaurante só contratará novos ajudantes de cozinha ou garçons, se vir que os atuais não dão mais conta do recado e precisam de reforços – para ontem!

Resumindo: pela lógica do mercado, uma nova vaga só é aberta, quando todo o pessoal já ocupado está atolado de trabalho e esgotado por horas extras. Isso acontecerá em 2018? É muito improvável. E, mesmo que ocorra, será na forma da nova lei trabalhista. O risco é que, antes de efetivados, trabalhadores intermitentes preencham as lacunas por tempo indeterminado. Talvez, vejamos com isso alguma queda no desemprego, mas nada que possa ser comemorado como um golaço, a ponto de desagravar a péssima imagem de Temer, de eleger Meirelles e, sobretudo, de aliviar os brasileiros.