POLÍTICA

Alta de 1,2% do PIB: Brasil contou com a sorte para crescer

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Não há nada parecido com uma estratégia de longo prazo no conjunto dos números divulgados nesta quarta pelo IBGE, por mais que Temer jure o contrário

Jogo de azar: estratégia do governo é fechar os olhos e torcer por um resultado (Foto: Zdenko Zivkovic/Flickr)
Jogo de azar: estratégia do governo é fechar os olhos e torcer por um resultado (Foto: Zdenko Zivkovic/Flickr)

Vários números divulgados pelo IBGE, nesta quarta-feira (30), mostram que o Brasil esboçou um suspiro de crescimento no primeiro trimestre. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o PIB subiu 1,2%. Já em relação ao intervalo de outubro a dezembro, a alta foi de 0,4%. Já a expansão acumulada nos 12 meses encerrados em março alcançou 1,3%. Os dados serviram, como era de se esperar, para que o presidente Michel Temer reencenasse o papel de inabalável timoneiro que, apesar de toda a gritaria contrária, está nos levando para fora do maremoto. Mas, então, por que não se percebe um clima de alegre otimismo entre os pobres mortais que pegam transporte público de manhã para ganhar a vida? A resposta mais simples e honesta é: porque o Brasil continua contando com a sorte para crescer.

Há três observações a serem feitas sobre os resultados do PIB desta quarta. Primeira: embora esteja perdendo o fôlego, a agropecuária continuou carregando o país nas costas. Liderou a expansão econômica em várias comparações, mas mostrou seus limites ao exibir uma queda de 2,6% sobre o primeiro trimestre de 2017, puxada por uma redução de igual magnitude na área planta de soja e de 8,2% na área de milho. Mesmo com o desempenho positivo em algumas comparações, os próprios produtores rurais não se animaram. A Confederação Nacional da Agricultura, por exemplo, aproveitou a divulgação do PIB hoje para... reduzir a projeção de crescimento do agronegócio em 2018. Era de minguados 0,7% e desceu para 0,5%. Por quê? Além de problemas climáticos, o setor conta com uma paralisia geral da economia no segundo semestre, devido às eleições, bem como com o impacto da greve dos caminhoneiros nos últimos dias.

Segunda observação: do lado do consumo, as famílias gastaram 2,8% a mais em relação ao primeiro trimestre do ano passado, a despeito da queda de 0,5% da massa salarial real. Qual foi a mágica? Aumento do crediário, o que significa, na prática, que as pessoas não adquiriram nada, além de novos carnês e dívidas. Ressalte-se, aqui, que o crédito ao consumidor continua pornograficamente caro, embora a taxa básica de juros esteja no seu menor nível histórico. Nunca é demais lembrar, também, que a taxa de desemprego continua acima de dois dígitos. No trimestre encerrado em abril, o IBGE apurou uma taxa de 12,9%, pouco abaixo dos 13,6% do mesmo período do ano passado. Trata-se de um contingente de 13,4 milhões de pessoas em busca de um ganha-pão.

Ventos do norte não movem moinhos...

Terceira: com o mercado interno ainda frágil, a maior parte da produção foi escoada para as exportações, que cresceram 6% em relação ao primeiro trimestre de 2017. É verdade que, de um lado, a desvalorização do real ajuda a baratear nossos produtos, o que nos torna mais competitivos no mercado mundial. Mas há dúvidas sobre o cenário global. Os analistas temem que os Estados Unidos, liderados pelo intempestivo Donald Trump, aprofundem a guerra comercial com a China e outros parceiros, levando a novos tempos de protecionismo e recuo geral do comércio internacional. Alguns países, segundo a última carta de conjuntura do Ipea, estão desacelerando mais que o previsto, como o Japão e a Zona do Euro. Assim, não adianta nada termos preços competitivos, se não houver comprador para os produtos brasileiros.

Tudo somado, a expansão brasileira no primeiro trimestre é muito mais fruto de casuísmos da economia global com um resto de fôlego em alguns setores internos. A qualidade desse crescimento continua péssima, já que se assenta sobre bases estreitas: o agronegócio, a capacidade das famílias de se endividarem para consumir, e as exportações. Não há nada parecido com uma estratégia de longo prazo no conjunto dos números divulgados nesta quarta pelo IBGE. Por mais que Temer, seus ministros e seus parcos aliados digam o contrário.