ECONOMIA

Amoêdo, do Partido Novo, precisa murchar Bolsonaro

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Se conseguir recolocar Bolsonaro em seu devido lugar, em alguma nota exótica de rodapé na nossa história política, já terá prestado um favor imenso à nação

Amoêdo, do Partido Novo, precisa murchar Bolsonaro

(Foto: Divulgação/Página Oficial de João Amoêdo/Facebook)

Se a esquerda está perdida e o Brasil fatalmente caminha para um governo de direita, então que seja, pelo menos, um governo sério e consciente. O país não aguenta mais messias populistas, e Jair Bolsonaro, hoje em segundo lugar nas intenções de voto, é um deles. O ex-militar já admitiu ser um analfabeto funcional em economia, não sabe nem para que serve o tripé macroeconômico que, mal-e-mal, manteve o Brasil num caminho menos tortuoso desde o Plano Real, e afugenta economistas sérios. Mas o mercado, irracional como só ele, começa a gostar da ideia de tê-lo no Planalto até 2022, já que a opção, até agora, é o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva. Talvez, para os liberais conservadores, uma opção bem mais palatável esteja surgindo. Neste sábado (18), o Partido Novo deve confirmar João Amoêdo, seu fundador, como pré-candidato à Presidência. Se o fizer, espero, sinceramente, que consiga murchar a candidatura de Bolsonaro.

Antes de mais nada, devo dizer que não morro de amores pelo liberalismo econômico, nem pelo conservadorismo político. O primeiro deu mostras históricas de empurrar o mundo para o colapso, com a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, e com o estouro da bolha das hipotecas americanas, em 2008. Por isso, em economia, sou incomparavelmente mais Keynes que Milton Friedman. Em relação ao conservadorismo político, concordo, como já disse certa vez Chico Buarque, que “nem toda loucura é genial e nem toda lucidez é velha”. Aderir impensadamente a qualquer novidade, simplesmente porque é “nova”, seja em arte, costumes ou o que for, é tão irresponsável e burro, quanto resistir irracionalmente a inovações. O diabo de viver bem, como um ser pensante, é que precisamos... pensar. E isso dá uma preguiça enorme em muita gente, que prefere ficar passivamente esperando que lhe digam o que fazer, dizer ou pensar. Logo, o conservadorismo, para mim, é apenas um reflexo (no sentido fisiológico mesmo) de algumas pessoas diante de uma nova situação.

Política da porrada

Feito este preâmbulo para evitar (Deus quisesse que fosse assim tão fácil...) ataques odiosos e cheios de baba de quem quer que seja, retomemos o raciocínio. Bolsonaro cresceu no vácuo aberto pela implosão do PT, à esquerda, e dos partidos de centro e da direita tradicional. Todos arrastados pela Lava Jato para os esgotos da história política. A insatisfação generalizada levou parte da população a defender, com mais ou menos clareza, um governo firme, capaz de combater a corrupção. Não demorou muito para que “firme” fosse sinônimo de “forte”, que descambasse para “militar” ou algo parecido. Não é à toa que muitos dos eleitores de Bolsonaro só admitem duas hipóteses em 2018: ou ele sobe a rampa e veste a faixa presidencial, ou uma intervenção militar deve tomar o poder. Bolsonaro incorpora, portanto, o desejo dos eleitores que querem arrumar o país “na porrada”.

O problema é que Bolsonaro é só sorrisos e slogans. Para começar, não tem consistência ideológica. Ainda neste ano, deu uma entrevista ao Estadão quase em tom de gozação, em que se orgulhava de não entender de economia, defendia a intervenção do Estado, dizia-se contra a privatização, e atacava frontalmente o capital financeiro. Agora que tem chances reais de sentar na cadeira e os donos do dinheiro querem saber se ele, realmente, merece estar nela, tenta de todos os jeitos se vender como um concorrente sério e responsável. Já defende a autonomia do Banco Central, já fala em liberalismo econômico, já cogita até privatização. Francamente, para alguém que se mostra como inflexível e senhor da razão (para gozo de seus fanáticos admiradores), Bolsonaro amarelou bastante nos últimos meses.

Fake, fake, fake

É por isso que a conversão de Bolsonaro ao liberalismo econômico é muito mais marketing do que convicção. Se houver uma força liberal realmente legítima, é possível que esvazie a sua candidatura. Amoêdo, do Novo, tem tudo para cumprir esse papel. Egresso do mercado de capitais, bem relacionado, contando com pesos-pesados do pensamento econômico brasileiro, como Gustavo Franco (um dos criadores do Plano Real e ex-tucano), Amoêdo tem um projeto claro e coerente para o Brasil, calcado em sua experiência e em sua equipe. Trata-se de um Estado mínimo, focado na prestação de serviços de saúde, educação e segurança, que apoia a privatização sem limites (leia-se, Petrobras) e que pretende racionalizar a tributação, a previdência, as leis trabalhistas etc.

Pode-se não gostar de parte ou de tudo o que ele defende. Eu, particularmente, sou cético quanto à liberdade econômica absoluta. Mas, pelo menos, Amoêdo tem um norte claro e, sobretudo, sabe do que fala. Se conseguir recolocar Bolsonaro em seu devido lugar, em alguma nota exótica de rodapé na nossa história política, já terá prestado um favor imenso à nação. Até um keynesiano como eu agradeceria!