POLÍTICA

Após o STF, Lula não pode mais dizer que é perseguido pela Justiça. E agora?

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Fábula de que Lula é um perseguido político por sua luta a favor dos pobres cai com a vergonhosa decisão do Supremo

Fantasia: favores da Justiça a Lula são os mesmos desfrutados pela elite que critica (Foto: Ricardo Stuckert)
Fantasia: favores da Justiça a Lula são os mesmos desfrutados pela elite que critica (Foto: Ricardo Stuckert)

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está na iminência de trocar a suposta situação de o homem mais perseguido pela Justiça brasileira para a de maior beneficiado por ela. Para quem esbraveja e amaldiçoa os processos em que é réu, declarando em alto e bom som que é o exemplo de como a elite política, econômica e social tenta destruir um líder popular, a decisão do STF de lhe conceder um habeas corpus provisório até 04 de abril, tomada nesta quinta-feira (22), é uma prova eloquente de que não é nada disso. Lula, como qualquer outro com muito dinheiro e contatos influentes, é um privilegiado pelo nosso sistema judicial caduco e rocambolesco.

O problema agora para os petistas é que discurso adotar? Como ficará a bandeira de perseguidos políticos, se Lula ganhar o habeas corpus – como parece que acontecerá daqui duas semanas? Desde o mensalão, que abalou a gestão Lula e levou o PT e seus militantes a dispararem os primeiros mísseis contra o STF, passando pelo petrolão e chegando a Lula, criou-se toda uma fábula em que inocentes políticos comprometidos com a justiça social são abatidos por decisões arbitrárias da Justiça, mancomunada com as elites econômicas e com a imprensa golpista. Essa fábula está prestes a provar que era apenas isso: um delírio.

Fumaça e fogo...

A maior prova é que as primeiras manifestações de lideranças petistas, após a vexaminosa decisão do STF nesta quinta, foram de uma envergonhada comemoração, alinhando constrangidos elogios à sapiência dos supremos magistrados. Tarso Genro, ex-ministro da Justiça de Lula e um dos maiores críticos dos descaminhos do PT, saiu-se com essa: “A exceção ainda não venceu plenamente e o garantismo constitucional ainda tem certa força na ordem jurídica do país.” José Eduardo Cardozo, que começou a gestão Dilma também como ministro da Justiça e terminou como seu advogado no impeachment, recorreu a um jargão jurídico batido: “É evidente que nessa decisão existe a fumaça do bom direito.”

Que há fumaça, não há dúvida. Mas trata-se de outro tipo: a que indica a queima casuísta da jurisprudência determinada pelo próprio STF, em três julgamentos recentes, que assegurou a constitucionalidade da prisão após a condenação em segunda instância. Decisão essa que ameaça agora o ex-presidente, cujo rol de defensores incorpora advogados contratados a peso de ouro e até mesmo um ex-presidente do próprio Supremo, Sepúlveda Pertence. Sua influência é tamanha, que conseguiu se encontrar com a presidente da corte, Cármen Lúcia, com a facilidade de quem marca um café com uma amiga. Mais direito à ampla defesa do que isso, é difícil de imaginar...