MICHEL TEMER

As mulheres do governo Temer: falta de ética não está no gênero, mas no caráter

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Para cada Oprah Winfrey que mita, há uma Cristiane Brasil e uma Luislinda Valois para nos lembrar de que desvios não poupam nenhum dos sexos

As mulheres do governo Temer: falta de ética não está no gênero, mas no caráter

Filha de peixe: Cris Brasil leva o pai às lágrimas (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Ag. Brasil)

Quando Michel Temer assumiu a presidência, uma das primeiras e justificadas críticas era que montara um ministério de homens brancos e velhos. Não havia diversidade racial ou sexual, num claro contraste ao gabinete que deixou o comando do país com o impeachment de Dilma Rousseff. O empoderamento feminino é uma das tarefas fundamentais de nossos dias, e merece o apoio e o engajamento de homens e mulheres. Está aí a 75º edição do Globo de Ouro, no último domingo (7), como um eloquente exemplo. Mas... ah, se a vida fosse assim tão simples! Há uma visão voluntariosa de que basta que mais mulheres cheguem ao poder, para que o mundo melhore. Infelizmente, se há algo que aprendi com as sucessivas crises políticas e fraudes empresariais, no Brasil e no mundo, é que a falta de ética não é monopólio de homens brancos caucasianos. Corrupção, desvios, autoritarismo, malfeitos, crimes... enfim, a falta de caráter não tem gênero, cor, idade, religião... estão aí as mulheres do governo Temer para provar.

A mais recente é Cristiane Brasil, filha do mensaleiro Roberto Jefferson, cuja posse no Ministério do Trabalho foi suspensa por uma liminar da Justiça. Desde que seu nome foi confirmado numa reunião entre o pai e o presidente, na última semana, não param de surgir casos de desvios éticos. Dois processos trabalhistas, movidos por motoristas que trabalhavam em jornadas abusivas e sem carteira assinada. A demissão de uma funcionária, durante o período de licença médica bancado pelo INSS, com o agravante de que a mulher era concursada e Cristiane a tomara “emprestada” para atividades particulares. Agora aparece, também, a história de que direciona parte de sua verba de gabinete a que tem direito como deputada federal para uma locadora de veículos. O problema é que a tal locadora pertence à tia de sua chefe de gabinete e a empresa está registrada no endereço onde existe um... escritório de contabilidade!!

Por fim, nunca é demais lembrar que o suplente de Cristiane é Nelson Nahim, condenado pela Justiça a 12 anos de prisão por exploração sexual de menores. Em bom português, Nahim mantinha crianças e adolescentes em um sítio para atender a uma clientela pedófila. Só está livre, por causa de um habeas corpus. Se Cristiane, efetivamente, tornar-se ministra de Temer, ele ocupará sua vaga na Câmara e, por tabela, ganhará foro privilegiado. Agora me diga: como uma mãe pode tolerar, na sua chapa, alguém que lucrou abusando de crianças?

Meus direitos primeiro

Mas a outra mulher no alto escalão do governo Temer também não fica para trás. Desde que chegou à Secretaria de Direitos Humanos, indicada pelo PSDB, Luislinda Valois tem se notabilizado por defender os próprios direitos. Desembargadora aposentada, ela ganhou suas primeiras manchetes pelo motivo errado: um recurso em que defendia o acúmulo de seu salário de ministra com a aposentadoria do Tribunal de Justiça da Bahia. Se o recurso fosse acatado, Luislinda ganharia R$ 61 mil, muito mais que o teto salarial para servidores públicos determinado pela Constituição, equivalente a quanto ganha um ministro do STF. Hoje, esse valor é de R$ 33,7 mil.

Em sua defesa, a ministra elaborou uma peça histórica do oportunismo racial: afirmou que abrir mão de um dos salários corresponderia a trabalhar de graça, ou seja, colocar-se numa situação de escravidão. Pegou tão mal, que Temer pensou em demiti-la. Para se justificar, Luislinda disse, publicamente, que precisava de dinheiro para se manter à altura do novo cargo, e citou gastos com cabelereiro, roupas, restaurantes e viagens. Não lhe ocorreu que, com o salário de R$ 31 mil de ministra, dá para comprar boas roupas e frequentar bons cabelereiros. Tampouco citou que, em viagens oficiais, suas despesas são pagas pelo governo – ou seja, pelo seu, pelo meu, pelo nosso dinheiro, incluindo a eterna caixa-preta dos gastos com cartões de crédito.

Oprah ficaria envergonhada

Enquanto se empenhava em melhorar o próprio bolso, Luislinda deixou passar algumas questões, no mínimo, importantes. Foi o caso da lambança da portaria que mudava a definição de trabalho escravo e determinava que a divulgação da chamada lista suja, aquela com as empresas que cometem tal crime, ficaria a cargo do ministro do Trabalho. Choveram críticas à omissão de Luislinda no episódio. Sua presença no ministério ficou tão incômoda, que a esperança de Temer era que ela deixasse o cargo, quando o PSDB decidiu romper com o governo. Como prova de seu apego ao status e ao poder, a ministra preferiu se desfiliar do partido a deixar o Planalto.

Em tempos em que as mulheres lutam para ampliar espaços, equiparar salários, impor limites a machistas e eliminar qualquer tipo de discriminação, é ótimo vê-las em cargos de comando em Brasília. Como disse Oprah Winfrey no Globo de Ouro, todas as meninas que assistiram à sua premiação devem saber que um novo dia está começando. Mas precisam, também, entender que a pura e simples ascensão das mulheres não significa, necessariamente, mais ética ou moralidade na vida pública. Para cada Oprah que mita, há uma Cristiane Brasil e uma Luislinda Valois para nos lembrar do contrário.