ECONOMIA

Bancos e investidores vão de Bolsonaro contra Lula (e podem quebrar a cara)

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Quanto mais se olha para as parcas ideias econômicas do ex-capitão, mais parecido com o petista, ele fica

Bancos e investidores vão de Bolsonaro contra Lula (e podem quebrar a cara)

(Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

Quanto mais as pesquisas apontam um eventual segundo turno, na eleição de 2018, entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, mais aquela entidade metafísica chamada mercado admite apoiar o ex-capitão do Exército contra o ex-presidente. O Estadão desta segunda-feira (30), por exemplo, informa que os analistas de mercado projetam uma hecatombe econômica, caso Lula tenha chances concretas de voltar ao Palácio do Planalto. Entre os cavaleiros do apocalipse que marchariam sobre Brasília, estaria a disparada do dólar. Segundo o jornal, a moeda americana poderia bater em algo entre R$ 5 e R$ 6 – bem mais do que os R$ 4 que alcançou em 2002, quando o petista se elegeu pela primeira vez. Diante disso, o mercado já cogita, seriamente, apoiar Bolsonaro. O problema dessa estratégia é óbvio: banqueiros e investidores em geral podem quebrar a cara com o militar, que já mostrou que não morre de amores por eles.

A pergunta mais simples é: qual é, efetivamente, a política econômica que Bolsonaro pretende adotar, caso seja eleito? Primeiro, ele próprio admite que não entende do assunto. Em entrevista ao Estadão, em abril, o presidenciável reconheceu que, em matéria de economia, está “no ensino fundamental”. Mas, em vez de prometer estudar mais e se aprofundar na área, fez pouco caso de quem sabe. “Nós só tivemos especialistas nos últimos 15 anos, e o Brasil está o caos”, afirmou na ocasião. Além de ser uma cortina de fumaça com que tenta encobrir sua ignorância no assunto, desdenhar dos economistas não o ajuda em nada. Basta lembrar que um de seus maiores desafios é atrair economistas respeitáveis para sua campanha. Até o momento, ninguém digno de nota endossou sua salada ideológica.

O antiliberal preferido pelos liberais

Outra coisa: Bolsonaro é contrário a muitas das medidas que agradam ao mercado. Sua indisposição vai desde o tempo mínimo de contribuição para obter a aposentadoria integral, passando pela resistência em unificar o regime previdenciário (isto é, trabalhadores da iniciativa privada e funcionários públicos, incluindo os militares, seguiriam as mesmas regras para pendurar as chuteiras), até a oposição à privatização de estatais. O ex-capitão também é contrário à autonomia formal do Banco Central, algo que o mercado defende, com o argumento de que seria fundamental para que o combate à inflação fosse mais eficiente. “Se deixar à vontade, toda vez que tiver um refresco na economia, esse pessoal [a diretoria do BC] vai inventar uma maneira de ajudar mais o sistema financeiro”, disse ao jornal, para arrematar: “todo mundo tem que dar sua cota de sacrifício”, referindo-se ao que o governo gasta com o pagamento da dívida pública.

Outro tema capaz de dar urticárias da Faria Lima a Wall Street é o teto de gastos aprovado logo no começo do governo de Michel Temer. Bolsonaro está disposto a revê-lo, mesmo que a medida seja vista como fundamental, pelos investidores, para que a dívida pública seja controlada e, no médio prazo, comece a recuar em relação ao PIB. Para muita gente de terno caro e gravata importada, flexibilizar o teto de gastos é dar uma colher de sopa ao azar: as contas públicas escapariam do controle, a dívida brasileira explodiria e, em alguns anos, não haveria dinheiro que bastasse para arcar com todas as despesas. O resultado? Ou o Brasil passaria anos de penúria, ou o governo ligaria a máquina de fabricar dinheiro e puniria a população com uma grande inflação.

A ironia é que os eleitores de Bolsonaro pregam aos quatro ventos que ele é o anti-Lula, mas, quanto mais se analisam suas ideias econômicas, mais parecidos os dois ficam. É hora de os banqueiros e investidores afrouxarem a gravata e deixarem o oxigênio voltar ao cérebro.