POLÍTICA

Blefe de Temer, reforma da previdência custou, pelo menos, R$ 3,2 bi para não ser votada

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É de se perguntar, agora, se Temer e os deputados beneficiados devolverão esse dinheiro que faz tanta falta para os brasileiros

Só cena: tudo o que Temer conseguiu, com a reforma da previdência, foi dar mais dinheiro ao Congresso (Beto Barata/PR)
Só cena: tudo o que Temer conseguiu, com a reforma da previdência, foi dar mais dinheiro ao Congresso (Beto Barata/PR)

Há dois meses, aproveitei este espaço no Storia para criticar a brincadeira de “me engana, que eu gosto”, entre o presidente Michel Temer e o mercado – essa entidade metafísica, formada por quem deseja ganhar dinheiro no mercado financeiro. Na ocasião, a Bolsa brasileira batera um recorde de pontuação, com a notícia de que a votação da reforma da previdência estava pronta para ocorrer. Dias depois, quando Temer e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, afirmaram que a apreciação do texto fora remarcada para fevereiro, a Bolsa despencou. Se o prejuízo se restringisse ao mercado de capitais, seria preocupante, mas não diria respeito à maioria da população. Mas, como custou alguns bilhões de reais, expressos na liberação de emendas parlamentares e oriundos dos impostos pagos por todo o povo, o blefe de Temer saiu caro para os brasileiros.

Segundo a ONG Contas Abertas, estima-se que, pelo menos, R$ 3,2 bilhões foram liberados em emendas parlamentares, apenas em dezembro. Para quem não se lembra, naquele mês, Temer e Maia ainda tentavam aprovar a reforma da previdência. Ostentando o nada honroso título de ser um dos mais impopulares presidentes da nossa história, sem um discurso poderoso para convencer seus aliados, resta a Temer apenas o mau e velho fisiologismo. Trocar dinheiro por votos é algo trivial nesta gestão – basta ver que, ainda de acordo com a Contas Abertas, outros R$ 4,4 bilhões foram liberados pelo presidente no meio do ano, quando tentava a primeira denúncia da Procuradoria-Geral da União contra si.

Há muito tempo, já estava claro que a reforma era apenas uma piada de salão, cujo único fim era entreter o público, entre uma e outra beliscada no erário público. É de se perguntar agora se, uma vez enterrada a votação e uma vez assumida a prática de liberar emendas em troca dos supostos votos para aprová-la, Temer terá coragem de suspender o pagamento de tais emendas, e se os parlamentares que já receberam o dinheiro terão a decência de devolvê-lo. Afinal, há usos muito mais nobres para esses R$ 3,2 bilhões. Equipar a polícia do Rio de Janeiro seria um deles.