POLÍTICA

Bolsonaro pode, mesmo, vencer em 2018?

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Por ora, há motivos bem práticos para evitar o clima de “já ganhou” (para uns) e de “é o fim do mundo” (para outros)

Bolsonaro pode, mesmo, vencer em 2018?

A pesquisa do site Poder360 que coloca Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva tecnicamente empatados despertou, com iguais intensidades, esperanças e medos de que o ex-militar seja eleito em 2018. Para uns, Bolsonaro encarna o pulso firme de que o Brasil necessita nesta hora para extirpar, de uma vez por todas, a corrupção da máquina pública e impor os bons e velhos costumes a uma sociedade degenerada por anos de tolerância promíscua. Para outros, significa mergulhar o país na Idade das Trevas do autoritarismo e da intolerância, num retrocesso intragável após anos de suadas conquistas sociais. Mas, objetivamente, Bolsonaro tem condições de vencer em 2018?

Por ora, há motivos bem práticos para evitar o clima de “já ganhou” (para uns) e de “é o fim do mundo” (para outros). Primeiro, as eleições só ocorrerão a daqui 15 meses – o que, em política, é uma eternidade, ainda mais em tempos de Lava Jato. Até lá, muitos nomes serão lançados como balões de ensaio. Basta lembrar que, em 2001, pesquisas apontavam Roseana Sarney como a virtual adversária de Lula no segundo turno. E, em 2014, Marina Silva chegou a aparecer à frente de Aécio Neves como vice-líder da disputa, atrás de Dilma Rousseff.

O fato de Lula e Bolsonaro polarizarem as pesquisas, a mais de um ano da eleição, reflete sobretudo o maniqueísmo de nossos tempos. Lula veste o figurino de pai dos pobres, perseguido pela elite branca por promover uma revolução social intolerável a quem não gosta de disputar espaço com pessoas humildes em aviões. Bolsonaro encarna o moralismo irredutível contra a desordem ética e espiritual que, segundo seus eleitores, é a base da corrupção. Afinal, um bom cristão, temente a Deus, nunca roubaria ou deixaria roubar, nem corromperia o país, ao tolerar maus costumes.

Querer não é poder

Mas, vamos lá: primeiro, Bolsonaro precisa se viabilizar como candidato. Isso requer mudar-se para um partido mais forte que o seu nanico PSC. Seu desejo, por ora, é migrar para o PR, dono da quinta maior bancada da Câmara nesta legislatura e do sexto maior tempo de TV em 2014 (um minuto e 16 segundos). Mas está difícil. O ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, jogou pesado com a cúpula do PR: disse que deixará o partido, se Bolsonaro se filiar. O motivo é que Garotinho deseja voltar à vida pública e não quer um adversário que lhe faça sombra dentro de sua legenda.

Há outro complicador: o PR quer Bolsonaro, mas não lhe garante o direito de disputar a Presidência da República. Para o partido, o mais importante seria que o ex-militar se lançasse à reeleição na Câmara. Com a expectativa de uma grande votação no Rio de Janeiro, ele seria o puxador de votos ideal para ampliar a bancada da legenda na Casa.

Os próprios membros do partido já disseram que ainda é cedo para discutir se lançarão um candidato próprio ao Planalto. E isso tem a ver, logicamente, com a conjugação de forças: afinal, partidos como o PR vendem caro (caro mesmo, como se viu na Lava Jato) seu cobiçado tempo de TV. 

Corredor polonês

Mas, vamos supor que Bolsonaro consiga vencer tais resistências e emplacar sua candidatura. Aí, entram outras ponderações. Instantaneamente, ele se tornará um alvo dos demais concorrentes. Sua vida será escarafunchada por rivais e pela imprensa. De denúncias de mau hálito a acusações de notas baixas na escola, candidatos enfrentam um verdadeiro corredor polonês entre as urnas e a rampa do Palácio. Bolsonaro construiu sua imagem, até agora, como homem probo e rígido. Ao oficializar sua candidatura, colocará à prova, mais do que nunca, seu passado.

Partindo do princípio de que não se encontre nada de ilegal nele, o ex-militar ainda enfrentará outro inimigo: suas polêmicas declarações. Centradas, sobretudo, na condenação de homossexuais, na apologia à tortura e à morte de criminosos, na desqualificação das mulheres e de outras minorias, as frases contrariam a necessária parcimônia que um presidente deve ter. As mulheres, mesmo as conservadoras, gostariam de ouvir que Bolsonaro não as estupraria, porque não merecem? Algum pai de família gostaria que um marmanjo dissesse isso a suas filhas? Algum homem que tenha irmã, mãe, tias, amigas ou namorada, esposa (e, claro, um mínimo de juízo)? Lembrem-se de que o processo contra ele, por apologia ao estupro, ainda corre no STF.

Tudo isso será exposto no meio mais poderoso para decidir a eleição: a propaganda eleitoral gratuita. Candidatos com maior tempo de TV baterão sem tréguas em Bolsonaro, caso estejam atrás nas pesquisas ou se sintam ameaçados. Como os cientistas políticos não se cansam de dizer: a sondagem eleitoral que realmente importa é a divulgada uma semana após o início da propaganda gratuita. A maioria dos brasileiros não lê jornais, não lê revistas e gosta apenas de ver gatinhos fofinhos e bizarrices na internet. Logo, só se preocupará com a eleição quando for obrigada.

O Trump brasileiro?

Por último, há quem lembre que Donald Trump, uma espécie de Bolsonaro americano, venceu a corrida pela Casa Branca, contra todas as expectativas. Felizmente, nem sempre é ruim não ser como os americanos. Lá, o voto não é obrigatório. Logo, apenas os mais engajados saem de casa para escolher quem mandará no país.

Aqui, a participação é obrigatória. Por isso, mesmo eleitores não engajados e não fanáticos precisam se manifestar. E, como os cientistas políticos sempre ressaltam, é esse centro quem desempata as eleições. No primeiro turno, ele será disputado por candidatos como Marina Silva e um tucano qualquer. É improvável, até aqui, que qualquer um deles apoie Bolsonaro, num eventual segundo turno, contra Lula.