POLÍTICA

Brasil deve sair ainda mais pobre de 2018, mesmo com aumento do PIB

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Segundo o último boletim do Banco Central, a pífia alta do PIB não deve compensar a inflação deste ano. Preparem-se...

Hora de encarar a verdade: até quando o mercado e os políticos venderão miragens para o povo? (Foto: Tania Rego/ Agência Brasil
Hora de encarar a verdade: até quando o mercado e os políticos venderão miragens para o povo? (Foto: Tania Rego/ Agência Brasil

Quando seus vieses cognitivos causam apenas um debate entre você e seu amigo sobre a imparcialidade do juiz que apitou o jogo de seu time do coração, o que pode acontecer de pior é sua amizade ficar estremecida. Nada que uma semana de distância e uma nova rodada de cervejas não resolvam. Mas, quando seus vieses cognitivos o induzem a apostar mais do que se deve nas projeções econômicas, na bolsa de valores ou na capacidade efetiva de um governo de nos tirar do buraco, então o pior que se pode esperar é que, cego por suas crenças, você atrapalhe quem não se deixa levar por convicções pré-fabricadas. Em bom português: você mais estorva, do que ajuda. E os economistas, analistas de mercado, empresários e políticos têm se especializado em vender vento nos últimos anos. Uma prova é o sucessivo corte das projeções do PIB para este ano e o próximo.

É claro que um governo, qualquer governo, sempre chutará para cima as expectativas de crescimento da economia. Afinal, políticos sincericidas têm carreiras curtas. Nas contas do Ministério do Planejamento, por exemplo, o Brasil crescerá 3% em 2018. Não é nada espetacular, mas, para quem ainda sofre os efeitos dos dois piores anos de recessão já vividos pelo país, é um alento. Mas, lembremo-nos do básico: é a equipe do presidente Michel Temer quem está dizendo isso. Na dúvida, sempre é bom consultar uma segunda ou terceira opinião. E aí é que está o problema: os analistas de mercado e economistas que, supostamente, deveriam ser independentes estão comprando qualquer discurso otimista. Mesmo que seja de Temer. Mesmo que seja deles próprios.

O mercado de trabalho ainda está instável e com taxas preocupantes de emprego informal. Mas quem disse que homens em ternos caros, confortavelmente refrigerados em prédios na avenida Faria Lima, entendem o que isso significa para os cidadãos comuns – aquele brasileiro anônimo que não tem coragem de assumir um crediário, porque não sabe o dia de amanhã? A massa salarial está menor, porque o salário médio de quem consegue um trabalho obviamente encolheu. Mas, e daí? A taxa básica de juros está no seu menor patamar histórico. Reza a cartilha econômica que, portanto, os investimentos devem voltar com força e o consumo deve bombar. Onde mesmo? No país em que os juros ao consumidor batem em 300%? No país em que a crise política não nos permite saber o que virá depois de outubro?

Aperte os cintos, antes que o façam por você

Como já escrevi algumas vezes, o problema de você ignorar a realidade é que a realidade não te ignora de volta. Andar de olhos fechados não faz com que o poste desapareça magicamente. Mais dia, menos dia, você dará de cara com ele. É isso, aliás, que os economistas, analistas e investidores começam a perceber amargamente: superestimaram as condições de recuperação do país. Agora são obrigados a recuar. A previsão de crescimento do PIB de 2018, que chegou perto de 3% no início de março, já baixou para 2,75% no relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (23) pelo Banco Central. É a quarta semana consecutiva de queda desta estimativa.

Além disso, é preciso lembrar que o crescimento real de qualquer país é medido pela alta nominal de seu PIB, menos a inflação do período. Ah! Olhe de novo, então! A inflação oficial prevista para este ano é de 3,49%, segundo o mesmo relatório. Faça as contas: num cálculo de padaria, isso significa que, mantidas as atuais condições de pressão e temperatura, encerraremos 2018 com um crescimento real negativo de 0,74%. Um exemplo em números bem simples: se o PIB brasileiro fosse de R$ 100, ele deveria fechar dezembro em R$ 103,49 apenas para não perder da inflação. Mas a previsão média é de alcançar R$ 102,75. Cresceu? Nominalmente, sim. E na prática? Na prática faltariam 74 centavos para que o país saísse deste ano exatamente como entrou. Conclusão: prepare-se para entrar 0,74% mais pobre no próximo ano – e contando...