POLÍTICA

Brasil será a próxima Argentina?

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Basta que um presidente que se orgulha de não entender nada de economia seja eleito para mergulharmos numa crise semelhante à argentina. Depois, não adianta reclamar

Espelho meu: existe um país parecido com o meu? (Foto: Márcio Juliboni)
Espelho meu: existe um país parecido com o meu? (Foto: Márcio Juliboni)

A semana que termina foi assustadora para a Argentina, que se viu assombrada pelo fantasma da grave crise que a abateu no início dos anos 2000. Para deter a disparada do dólar, o Banco Central argentino elevou a taxa básica de juros pela terceira vez em duas semanas. Com isso, os juros passaram de 22,75% ao ano para 40% no período. Trata-se da maior taxa nominal de juros do mundo, deixando bem atrás a Venezuela que, apesar de toda a ruína econômica e crise política, oferece 21% ao ano. Mas, mais do que lamentar pelo nosso vizinho, o importante é compreender até que ponto o Brasil pode descarrilar como ele.

Por ora, os economistas estão preocupados com os efeitos de curto prazo da crise argentina sobre as nossas exportações. A impressão geral é de que seu impacto em nossa balança comercial será limitado. Mas a verdadeira questão é quanto nossas fragilidades estruturais nos levarão pelo mesmo caminho. A resposta, infelizmente, está longe de ser confortável – e a maior parte da culpa é nossa.

É verdade que, em termos de dimensões, a economia argentina não se compara com a brasileira. Seu PIB, no ano passado, foi de US$ 546 bilhões, praticamente um terço do brasileiro. Suas reservas internacionais alcançam US$ 57 bilhões, ante os nossos quase US$ 380 bilhões. Mas alguns de nossos indicadores são tão ruins ou piores que os da Argentina. O governo de Maurício Macri reduziu a meta de déficit do setor público de 3,2% para 2,7% do PIB para este ano. Trata-se de um número parecido com 2,27% de déficit primário proposto pela equipe de Michel Temer. A dívida pública brasileira, contudo, está em 74%, ante os 54% dos vizinhos.

Quem avisa, amigo é

A gatilho da crise argentina foi a perspectiva de que os EUA elevem os juros acima do previsto, o que atrai os investidores internacionais, que se desfazem de suas aplicações no país, trocam pesos por dólares e, com eles, compram títulos públicos norte-americanos. Até o fim de abril, a moeda argentina acumula uma desvalorização de mais de 16% ante o dólar, ostentando a nada positiva liderança mundial neste quesito. O Brasil não fica muito atrás: entre a menor cotação registrada neste ano e a quinta-feira (03), o real perdeu 13% ante a moeda norte-americana. O movimento levou o Banco Central a anunciar uma intervenção no mercado, por meio de contratos futuros de dólar.

Tudo isso mostra que o Brasil está numa posição menos confortável do que os políticos e economistas chapas-brancas dizem. Basta que o próximo presidente adote medidas populistas ou – o que é pior – se orgulhe de não entender nada de economia e deixe o déficit fiscal se aprofundar, a dívida pública crescer e... será uma questão de tempo para alcançarmos a Argentina. E, a julgar por quem lidera a corrida presidencial neste instante, os brasileiros querem mesmo brincar com fogo. Depois, não adianta reclamar...