COMPORTAMENTO

Brasil, um país de gente que se orgulha de ser “sem-noção”

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Há um paradoxo tristemente engraçado neste país: todos defendem uma educação melhor, mas ninguém gosta de estudar

Brasil, um país de gente que se orgulha de ser “sem-noção”

Olê-olê-olá: eu quero ver onde essa coisa vai parar (Imagem: La Fête des Fous/Reprodução)

Está cientificamente comprovado: nós, brasileiros, somos um dos povos mais “sem-noção” do planeta. Nossa percepção da realidade é tão tosca, que somos vice-campeões mundiais em desinformação, de acordo com uma pesquisa publicada pela consultoria Ipsos Mori nesta quarta-feira (6). Só ficamos atrás da África do Sul, mas podemos nos orgulhar de batermos nações historicamente autoritárias, em que o acesso à informação é severamente controlado, como as Filipinas (terceira colocada) e a Arábia Saudita (10ª posição). A pesquisa entrevistou pouco mais de 29 mil pessoas em 38 países entre setembro e outubro. Mais do que alimentar nosso complexo masoquista de vira-lata, o resultado deveria servir de alerta para que fôssemos mais humildes em nossas opiniões, lêssemos e nos informássemos mais antes de sair pelas redes sociais da vida pregando com a febril certeza de profetas iluminados por Deus.

A Ipsos, num lapso de bom senso, não tenta explicar por que somos assim. Limita-se apenas a comparar o desempenho dos países, a partir de um questionário padrão aplicado em todos eles. As perguntas, é verdade, são uma salada: vão desde questões sobre saúde e religião, passando por qual a porcentagem estimada pelo entrevistado de conterrâneos que possuem smartphones e possuem automóveis. Seria desejável que as perguntas fossem mais acuradas e mais próximas da história e da cultura de cada nação, com o risco de tornarem-nas incomparáveis com os resultados de outros países. Dores metodológicas...

Na real

De qualquer modo, nossa vice-liderança em má percepção da realidade permite-nos um vislumbre do que somos. Arrisco duas explicações complementares. A primeira é histórica: como não me canso de citar, já em "Raízes do Brasil", Sérgio Buarque de Holanda nos lembrava que somos um povo avesso ao racionalismo, a pensamentos abstratos. Somos herdeiros de uma cultura ibérica que privilegiava o ímpeto aventureiro (afinal, era preciso ser muito louco para entrar numa caravela nos séculos XV e XVI para procurar terras que nem se sabia se estariam lá). Somos cordiais, no sentido de que nos movemos pelo coração, pelas emoções, pelo irracional. Não é por acaso, portanto, que o brasileiro padrão tem tanta dificuldade para acatar ordens genéricas, abstratas, derivadas apenas do raciocínio. Mesmo as sementes de nossa educação foram plantadas pelos jesuítas, com o único objetivo de catequisar os gentios. Não havia o interesse em lhes ensinar matemática, filosofia, física, história. Queria-se, apenas, que lessem a Bíblia e seguissem Jesus sem pensar, sem refletir – somente pela fé naquela palavra recém-descoberta.

Esse desdém por tudo o que é “complicado” – escola, raciocínios, debates, argumentação, estudos, ciências exatas etc. – transformou-se em arrogância. Um brasileiro típico não vence um debate com argumentos lógicos e fatos irrefutáveis. “Vence” no grito, intimidando o interlocutor, porque “sente” que está certo e o outro não. Não adianta que uma comissão dos mais notáveis gênios da Humanidade reencarne para convencê-lo do contrário. No limite, aferrado irracionalmente ao que “sente” como verdade, o brasileiro padrão correrá o risco de “descobrir” que Jesus era comunista por defender os pobres, que Gandhi era esquerdopata por pregar a independência da Índia, que Mandela ficava de mimimi com essa história de igualdade racial, que Einstein era um ateu atacando Deus por afirmar que o Universo não segue leis arbitrárias...

F...a-se quem sabe

Esse preconceito com a cultura aprofunda a nossa própria cova, quando se traduz em ojeriza à educação. Há um paradoxo tristemente engraçado neste país: todos defendem melhorias na educação, mas ninguém gosta de estudar. Todos esperam que nossas crianças se desenvolvam, mas poucos pais se dispõem a dar o exemplo, lendo e acompanhando suas tarefas. Quem se destaca é tachado de idiota, nerd, geniozinho, broxa, assexuado, não come nem é comido por ninguém... quem passa na malandragem, colando, comprando trabalhos, copiando e plagiando outros, é esperto, perspicaz, sabe das coisas. Não perde tempo com bobagens. Vive o melhor da vida. Aprende com ela, em vez de aprender coisas que “não têm nada a ver” naquelas aulas chatas. Com isso, gerações e gerações de brasileiros querem que a escola se f...

Há um grande e óbvio problema nisso: ignorar a realidade não faz com que ela suma ou mude apenas porque queremos que seja diferente. Desprezar a matemática não mudará o resultado de 2+2. Orgulhar-se de nunca ter lido um livro não fará ninguém mais sábio. Achar que é perda de tempo saber o que se passa no governo Trump não nos impedirá de sentirmos os efeitos nocivos de seus erros. O que nos leva ao escárnio com que os brasileiros desprezam o jornalismo, os sites e veículos sérios que tentam trazer um pouco de informação. Quando o fato contradiz a crença, o brasileiro médio fica com a crença e ataca o fato. Desqualifica-o como fake news. E afunda um pouco mais na ignorância e no seu universo paralelo. Desse jeito, é inevitável: ainda superaremos a África do Sul e seremos campeões mundiais em ignorância!