POLÍTICA

Chapa única de PT, PDT, Psol e PCdoB chegaria ao 2º turno?

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Na melhor das hipóteses, hoje, uma frente de esquerda empataria com Marina Silva em segundo lugar; mas a alternativa é não conseguir nem isso

Ponto de convergência: Lula conseguiria transferir votos para uma frente ampla de esquerda? (Foto Paulo Pinto/FotosPublicas)
Ponto de convergência: Lula conseguiria transferir votos para uma frente ampla de esquerda? (Foto Paulo Pinto/FotosPublicas)

Como era de se esperar, a primeira pesquisa Datafolha sobre as eleições de outubro, após a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, está repercutindo em todos os veículos noticiosos neste domingo (05). No geral, os analistas concentram-se nos potenciais “herdeiros” de Lula e na disparada dos votos brancos e nulos. Mas é preciso pensar, também, numa terceira possibilidade: já que, separadamente, nenhum dos candidatos de esquerda parece capaz de chegar ao segundo turno, não seria melhor unir forças numa frente única? A resposta (só para variar) não é simples e envolve uma série de variáveis que ainda não estão claras.

A primeira e mais óbvia questão é: afinal, quem participaria de uma frente ampla de esquerda? O fato é que a esquerda, no Brasil e no mundo, é algo tão amplo e vago, que pode incluir desde socialdemocratas a revolucionários bolcheviques e anarquistas, passando por católicos influenciados pelos resquícios da teologia da libertação, o movimento sindical, movimentos sociais e de afirmação de minorias. Imaginar, ingenuamente, que todos esses atores compartilham da mesma visão de mundo, das mesmas prioridades e dos mesmos métodos é tão errado, quanto pensar que todos os membros de uma família têm a mesma personalidade e as mesmas ideias, simplesmente porque possuem o mesmo sobrenome.

Todos por um?

Mas, vamos nos basear naquilo que há, até agora, de mais concreto: no início de fevereiro, PT, PDT, PCdoB e Psol anunciaram uma aliança para discutir uma “agenda conjunta” até a eleição. Na ocasião, a deputada federal Luciana Santos, presidente do PCdoB, afirmou: “vamos montar uma estratégia para ganhar as eleições. Se é para o primeiro ou segundo turno, quem vai dizer é o curso político.” Segundo o Datafolha deste domingo, o pré-candidato mais bem colocado desta frente é Ciro Gomes, do PDT, empacado em 9% das intenções de voto, quaisquer que sejam os seus rivais. Nos melhores cenários, Ciro empata, em terceiro lugar, com o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa, recém-filiado ao PSB e seu potencial candidato ao Planalto.

Diante dos números, seria razoável, portanto, que os demais presidenciáveis da frente renunciassem às candidaturas em apoio a Ciro. Seriam Manoela D’Ávila (PCdoB), Fernando Haddad ou Jaques Wagner (PT) e Guilherme Boulos (Psol). Há dois problemas aí. Primeiro: neste momento, a soma de todas as intenções de voto desse grupo gira ao redor de 13% a 15%, conforme o cenário proposto no Datafolha. Na melhor das hipóteses, seria o suficiente para empatar com Marina Silva (Rede) em segundo lugar, com o agravante de que, como se sabe, a política não é, nem de longe, uma ciência exata e a transferência de votos dos eleitores para a frente ampla não é automática, nem garantida. O segundo obstáculo: seria uma união de forças claramente desiguais. Sozinho, Ciro tem hoje mais apoio dos eleitores do que a soma dos outros três potenciais sócios. Quanto Ciro estaria disposto a negociar sua própria agenda política com candidatos 1%, 2% ou, no máximo, 3% de votos?

Lula, o supertrunfo?

É claro que há um elemento com muito poder de desequilibrar o jogo – o próprio ex-presidente Lula. Mesmo preso em Curitiba, o ex-metalúrgico lidera as intenções de votos, com fatias acima de 30% em qualquer cenário. Mais do que isso: 32% dos seus eleitores votariam em alguém indicado por ele, no caso de o próprio Lula não concorrer. Contas feitas, isso significa 9% do total de eleitores. Outros 36% dos eleitores não rejeitam, nem acatam a indicação de Lula. São o que o Datafolha chamou de “eleitores-pêndulo”: podem até, se for o caso, votar no escolhido do ex-presidente, se forem convencidos de que é a melhor opção.

Respondendo diretamente à pergunta deste artigo: neste momento, não há garantia de que uma frente ampla consiga chegar ao segundo turno da eleição. Dependerá do entrosamento entre as lideranças de cada partido, do aparo de arestas e egos, da capacidade de Lula de atrair votos para a chapa. Mas, objetivamente, essa é a melhor cartada. A outra é uma briga de todos contra todos, em que os presidenciáveis de esquerda desperdiçarão energia atacando não apenas os candidatos da direita, mas também aqueles que compartilham de ideologias semelhantes. Tudo para, até onde se enxerga, ficar fora do segundo turno.