POLÍTICA

Chegou a hora de Marina presidente?

Author

Marina Silva pode chegar ao Planalto, se não tropeçar na sua incapacidade de falar claramente sobre seus objetivos e suas propostas

Chegou a hora de Marina presidente?

(Foto: Leo Cabral/ MSILVA Online/Agência Fotos Públicas)

A coisa mais interessante da pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (01) não é a resistência de Luiz Inácio Lula da Silva, que se consolidou em primeiro lugar nas intenções de voto, apesar de tudo o que você já está caindo de saber. Também não é a estabilização de Jair Bolsonaro no segundo lugar. Tampouco é a incapacidade de João Doria e Geraldo Alckmin de apresentarem um desempenho relevante, ou a incompetência de Fernando Haddad, o plano B do PT, de atrair os votos de Lula, caso seu mentor político não concorra. O ponto principal é o indício de que Marina Silva começa a ser vista como uma alternativa séria, capaz de escapar da polarização entre bolsonaristas e lulistas. Será que chegou a hora de a ex-senadora acreana presidir o Brasil?

Primeiro, vamos aos números. A Folha de S.Paulo publicou, na edição de hoje, oito cenários para outubro de 2018. Antes de tudo, é preciso dizer que eles não são exatamente comparáveis, e há algumas simulações malucas, como a que coloca Sérgio Moro e Joaquim Barbosa concorrendo entre si. Sinceramente, é jogar dinheiro do Datafolha fora. Mas, nos cenários mais coerentes, Lula lidera com 35% a 36% das intenções, conforme o candidato tucano seja, respectivamente, Doria ou Alckmin. Bolsonaro vem em segundo, com 16% e 17%, e Marina Silva, em terceiro, com 14% e 13%.

Plano B, C, D...

Se Lula for condenado em segunda instância pelo Tribunal Federal Regional de Porto Alegre, responsável por revisar as decisões de Sérgio Moro, será retirado da disputa. Primeiro, porque será ficha suja. Segundo, porque estará preso. O PT estuda, mesmo que a contragosto, quatro alternativas para a situação. A primeira é carregar a candidatura de Lula no peito, sustentada por todos os recursos judiciais, liminares e habeas corpus que forem possíveis, ao mesmo tempo em que vende a tese de perseguição política ao “maior líder popular” do Brasil. Seria uma opção de alto risco, porque incendiaria o país e, no final, não haveria garantia de que Lula subisse a rampa do Planalto novamente. A segunda saída é boicotar a eleição, sob o mantra de que um pleito sem Lula é ilegítimo. As duas últimas opções são apoiar Ciro Gomes, ou lançar Fernando Haddad.

Com exceção da primeira, todas demais possíveis respostas do PT a uma eleição sem Lula beneficiam, sobretudo, Marina Silva. A ex-senadora, ex-ministra de Lula e ex-petista histórica é a que mais herda seus eleitores. Na média, ela passaria de 14% das intenções para 23% (um ganho de 9 pontos percentuais, dos 36 deixados por Lula para serem disputados entre os concorrentes). Esse impulso seria suficiente para levá-la à liderança da corrida no primeiro turno, segundo o Datafolha, à frente de Bolsonaro. Mesmo quando Ciro Gomes e Fernando Haddad entram na lista, a ex-senadora mantém-se na ponta. Ciro, por exemplo, herdaria apenas 6 pontos percentuais dos 36 de Lula. E Haddad, coitado, ficaria com míseros 3 pontos.

Na simulação de segundo turno, Marina ganharia de lavada de Bolsonaro: 47% a 29%. Seria um feito e tanto, já que, na pesquisa da CNT/MDA publicada no fim de setembro, Bolsonaro venceria três dos cinco cenários de segundo turno. Perderia apenas para Lula e Marina, com o adendo de que Marina estaria, na verdade, tecnicamente empatada com o ex-capitão do Exército naquela simulação. Já na pesquisa do Datafolha de hoje, a diferença está bem longe da margem de erro de 2 pontos para cima ou para baixo. Por último, Marina surge como uma opção bem mais palatável que o explosivo Ciro Gomes, célebre pelo pavio curto e por pérolas como dizer que a única função de sua esposa, a atriz Patrícia Pillar, é dormir com ele. Fácil, né, em tempos de luta pelo empodeiramento feminino...

Menos sonhática, por favor

Isto posto, resta a pergunta: Marina pode até crescer no vácuo de Lula e se cacifar à Presidência do país, mas ela aprendeu com os erros de sua campanha de 2014? É verdade que parte considerável de sua derrota deveu-se aos ataques inescrupulosos de Dilma Rousseff. Basta lembrar que o PT explorou, de modo sanguinário, o fato de uma das colaboradoras mais próximas de Marina, Neca Setúbal, ser uma das donas do Itaú Unibanco. Foi a deixa para que o marqueteiro petista, João Santana, hoje preso pela Lava Jato, veiculasse uma peça que era um primor de mau-caratismo: uma roda de banqueiros mafiosos rindo, enquanto uma família via a comida no prato diminuir.

Mas Marina não foi derrotada apenas pela estratégia petista de satanalizá-la. A ex-senadora foi vítima, também, de suas próprias incoerências, hesitações e inconsistências. Marina relutou em adotar posturas claras sobre temas que, naquele momento, eram sensíveis, como o aborto. Tampouco conseguiu falar, com clareza, sobre sua política econômica, apesar dos esforços de seu braço-direito para a área, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. Sua incapacidade de se comunicar com clareza, aliás, é uma de suas maiores fraquezas. Alguém já se esqueceu, por exemplo, de que, para mudar o país, precisávamos ser “sonháticos”? Marina pode estar mais perto do que nunca de ocupar o Palácio do Planalto. O PT de 2018 é uma moribunda lembrança do de 2014. O risco é que ela tropece nas próprias palavras novamente.