POLÍTICA

Ciro, Bolsonaro e Barbosa: esta será a eleição dos 'esquentadinhos'

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No mundo da pós-verdade, os eleitores buscam candidatos que emocionem ao nocautearem verbalmente os adversários. Fatos? Quem liga para isso?

Finaliza: eleitores querem sangue, em vez de ideias, e há candidatos dispostos a atendê-los (Foto: MartialArtsNomad.com/Flickr)
Finaliza: eleitores querem sangue, em vez de ideias, e há candidatos dispostos a atendê-los (Foto: MartialArtsNomad.com/Flickr)

Candidatos que não levam desaforo para casa já fazem parte do folclore político de qualquer país há tempos. Basta ver o presidente norte-americano, Donald Trump, dando coices em jornalistas que lhe fazem perguntas incômodas. O Brasil está perto de assistir à transformação da campanha presidencial em um octógono de MMA por, pelo menos, três dos principais nomes que se apresentaram: o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), o ex-militar Jair Bolsonaro (PSL – tem “social” no nome! É comunista!) e o estreante Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF e a aposta do PSB. É inevitável sentir uma mórbida curiosidade de vê-los confrontando-se em frente às câmeras de TV nos debates, ou importunados saudavelmente por jornalistas a fim de esclarecer passagens nebulosas de suas ideias e de sua vida. Uma coisa, no entanto, é certa: esquentadinhos como são, sobrará grosseria para todos os lados.

Conhecidos pelo estilo “bateu-levou”, o trio é conhecido por pérolas como:

“A minha companheira tem um dos papéis mais importantes, que é dormir comigo. Dormir comigo é um papel fundamental” – sobre o papel que Ciro Gomes, então candidato à presidência em 2002, atribuía à sua esposa, a atriz Patrícia Pillar, na campanha. A declaração foi dada em uma entrevista coletiva com mais de 20 jornalistas...

“Vá chafurdar no lixo. Palhaço” – de Joaquim Barbosa, em 2013, a Felipe Recondo, então repórter do Estadão. Recondo o abordou na saída de uma reunião do CNJ. Em 2016, Barbosa foi condenado a indenizá-lo por danos morais.

E, claro, o campeão absoluto da temporada de absurdos, Jair Bolsonaro:

“Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio moradia eu usava para comer gente, tá satisfeita agora ou não? Você tá satisfeita agora?” – a uma repórter da Folha de S.Paulo que lhe perguntou por que recebia auxílio-moradia, se possui imóvel próprio em Brasília.

“O dinheiro foi gasto em alguma coisa, ou você quer que preste continha: olha, recebi R$ 3 mil, gastei R$ 2 mil em hotel, vou devolver mil, tem cabimento isso?” – desprezando o princípio básico de que um deputado é um servidor público que deve prestar continha, sim, de tudo o que faz com o dinheiro dos brasileiros.

Às favas, a realidade...

É verdade que, numa democracia, espera-se que a própria sociedade apare os excessos e convirja para posições mais moderadas, por meio de debates e reflexões. Mas é justamente este o problema de nosso tempo: vivemos numa era, no Brasil e no mundo, em que ser ponderado é um insulto aos fanáticos de qualquer lado. Tudo isso, como os cientistas cognitivos, psicólogos comportamentais, psiquiatras, filósofos, teóricos da comunicação e mais uma penca de gente que se preocupa com os rumos do mundo estão cansados de dizer, reflete um fenômeno grave: a tal pós-verdade. De modo muito simples, a pós-verdade é caracterizada pela supremacia das emoções, preconceitos e crenças pessoais, em detrimento dos fatos e da racionalidade, na formação da opinião pública.

Ou, traduzindo: pouco importa o fato; para a maior parte das pessoas, hoje, o que vale mesmo é o que pensam sobre o fato e o que acham melhor para si mesmas. Danem-se as evidências. Dane-se a argumentação. Dane-se o bom-senso. Dane-se qualquer coisa que as contrarie, as melindre, fira seus caprichos, seus valores... no caso de dodói ideológico, nada melhor do que berrar feiro uma criançona contra o que a machuca. É adulto demais ter a consciência de que se está errado.

É por isso que os candidatos “esquentadinhos” podem canalizar boas fatias do eleitorado em outubro. Não é por acaso, ainda, que os três citados acima representem os principais campos ideológicos em disputa: Ciro pela esquerda, Bolsonaro pela direita e Barbosa pelo centro. O tom emotivo com que se dirigem ao público é simbolicamente rico para seus eleitores: as emoções ganham cores de condenação veemente dos adversários, dos corruptos, dos corruptores e de tudo o que está errado no país; ecoam como um clamor por justiça; soam a promessas de punição impiedosa contra os malfeitores; elevam-se como promessas de redenção messiânica. Tudo o que os eleitores da pós-verdade querem. As condições reais de concretizar tais promessas são apenas um desagradável detalhe. Melhor ignorá-las.