POLÍTICA

Dane-se o PT: agora, Lula só quer salvar a si próprio

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Lula sabe que, em nenhum cenário, o PT sairá ileso das eleições de outubro. Por isso, decidiu ser prático: a prioridade agora é salvar a si mesmo

"O partido sou eu": Lula, mas pode chamar de Luiz XIV Inácio da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula)
"O partido sou eu": Lula, mas pode chamar de Luiz XIV Inácio da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula)

Desde quarta-feira (9), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva encurralou seu próprio partido, o PT, a fim de salvar sua imagem – ou, na batida linguagem dos marqueteiros, sua “narrativa” de que é vítima de um golpe orquestrado pelas “elites” (seja lá a que elites refere-se aquele que convivia intimamente com empreiteiros corruptores), com o apoio da “mídia golpista”. Em carta aberta à presidente nacional da legenda, Gleisi Hoffmann, Lula afirma que desistir da candidatura equivale a assumir a culpa pelos crimes que o levaram à prisão. “Não cometi nenhum crime”, arremata.

Além de insistir na sua inocência, o ex-presidente pretendeu, com a carta, dar um sonoro “cala-boca” em grupos petistas que defendiam a busca de um plano B para a eleição de outubro. Até agora, o companheiro mais estrelado a tomar um puxão de orelha foi o ex-governador da Bahia, Jaques Wagner. No ato organizado por centrais sindicais em Curitiba, em 1º de maio, Wagner afirmou que o PT deveria cogitar a possibilidade de integrar a chapa de Ciro Gomes (PDT) como vice. A violenta reação dos caciques petistas o levou, dias depois, a dizer que suas declarações foram manipuladas. Gleisi, por sua vez, disse que “nem reza brava” faria o PT aprovar uma aliança com Ciro.

A tropa de choque de Lula está mobilizada desde quinta-feira (10), em São Paulo, passando a limpo a estratégia para sufocar qualquer debate sobre um eventual plano B. Trata-se do encontro da corrente majoritária do partido, a Construindo um Novo Brasil (CNB), liderada por Lula e seus aliados, como Gilberto Carvalho, ex-secretário-geral da Presidência, e José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras. Em entrevista à imprensa, Carvalho afirmou que a CNB apostará “até o fim” na “reversão deste quadro, mesmo sabendo que é difícil.”

Aos pedaços

Segundo reportagem do Estadão, o PT está rachado em três grandes pedaços: os lulistas radicais, que aceitam apenas dois cenários – Lula candidato ou boicote à eleição de outubro -; os moderados, que recomendam a busca de um plano B, quando todas as chances de libertar o presidente de honra do partido se esgotarem; e os imediatistas, que pregam a abertura já de conversas sobre alternativas.

O problema óbvio é que o PT não se resume a Lula, ainda que seu peso seja gigantesco. Há muito mais em jogo, como o futuro da bancada petista no Congresso e a eleição ou reeleição de governadores e deputados estaduais. Tudo isso depende de negociações para a montagem de palanques regionais. Se insistir na tese de que Dilma Rousseff foi vítima de um golpe liderado pelo MDB de Michel Temer e de antigos aliados dos governos petistas, como o PP e o PR, o partido ficará sem argumentos para defender alianças estaduais com os... golpistas. Um exemplo é o noivado entre o PT e o MDB cearense, comandado pelo senador Eunício Oliveira – sim, que votou a favor do impeachment de Dilma.

E o que dizer de Minas Gerais, onde o governador Fernando Pimentel tem como vice ninguém menos que um emedebista, Antônio Andrade. Pimentel também conta com outro membro do MDB, Adalclever Lopes, presidente da Assembleia Legislativa do Estado, para unir “golpistas” e “vítimas”. A situação fica ainda mais bizarra, quando se constata que Dilma deve se candidatar ao Congresso (ainda não se sabe se para a Câmara ou para o Senado) numa chapa que deve contar com emedebistas e petistas...

O rei e os peões

Mas, se Lula insistir na tese de perseguição política e bater o pé de que é candidato, os pactos com partidos “golpistas” para compor alianças regionais ficarão ameaçados. Sem eles, as chances de o PT perder de lavada em outubro são perigosamente grandes, dada a grande rejeição de parte do eleitorado, após as revelações da Lava-Jato. Endossar tais alianças, porém, significará que a guerra política é apenas jogo de cena de marqueteiros, e, nos bastidores, todos são farinha do mesmo saco.

Em qualquer cenário, contudo, o PT não sairá das urnas sem feridas profundas. Lula sabe disso e, por saber, decidiu ser prático: já que não é possível salvar todo mundo, está agora pensando apenas em garantir sua sobrevivência – ainda que precise caminhar sobre os cadáveres políticos de seus companheiros para sair dessa.