POLÍTICA

Delação de Palocci: um sinal de que o poder de Lula está no fim

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Se Palocci tivesse certeza de que Lula e o PT conseguiriam livrá-lo da Lava Jato, estaria quietinho

Lula é tão inocente assim? Ex-presidente estava cercado de traidores e não sabia? (Foto: J. Freitas - Agência Brasil/Wikimedia Commons)
Lula é tão inocente assim? Ex-presidente estava cercado de traidores e não sabia? (Foto: J. Freitas - Agência Brasil/Wikimedia Commons)

Ex-ministro da Fazenda de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff, homem forte do PT nos dois governos e petista histórico, Antonio Palocci finalmente fechou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal. Preso preventivamente desde setembro de 2016 pela Operação Lava Jato, Palocci detalhará agora o seu outro lado: o de operador de Lula e Dilma no esquema de propinas desbaratado na Petrobras; o de administrador da conta-propina de Lula junto à Odebrecht, que o identificava como “Italiano”; o de portador de segredos das entranhas petistas capazes de embrulhar o estômago. Sua delação deve ser vista como um duplo sinal. De um lado, mostra que Palocci compreendeu que está sozinho após a prisão de Lula. De outro, significa que o ex-ministro responderá na mesma moeda, abandonando Lula para se salvar.

O acordo de delação ainda precisa ser homologado pelo juiz Sérgio Moro, o que deve ocorrer em duas semanas, segundo informações da imprensa. Até agora, os pontos a que jornalistas tiveram acesso revelam um Lula muito distante daquele herói perseguido pela elite por lutar pelos mais pobres. Palocci afirmou que entregou, pessoalmente, envelopes de dinheiro ao ex-presidente, seja na sede do Instituto Lula, seja em outros locais previamente combinados. Alguns continham R$ 50 mil em dinheiro vivo. Palocci se dispôs a provar o que diz, indicando locais, datas, horários e indicando seu motorista particular como testemunha.

É verdade que a delação precisa parar de pé, por meio de provas incontestáveis. A própria procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que não participou das negociações, pois o caso de Palocci está na primeira instância, em Curitiba, afirmou nesta sexta-feira (27) que “tudo precisa ser avaliado com muito cuidado”. Sem dúvida, ainda mais, em se tratando de um aliado tão próximo de um ex-presidente tão importante. Mas, mesmo seus inimigos admitem que Palocci é inteligente. Sua pressa em abrir o jogo mostra que entendeu que o tempo está se esgotando. Lula já está preso. Outros julgamentos virão, como o do sítio de Atibaia e o da venda de medidas provisórias. Outros delatores já entregaram suas provas de que o ex-presidente também “sofria” de dupla personalidade: a “alma mais honesta do país” versus o “chefe de uma organização criminosa”.

Testemunha e participante

Ainda que não apresente muitas novidades, a contribuição de Palocci representará o último prego no caixão político de Lula e do PT. Pela primeira vez, um petista histórico, graúdo, que conviveu intimamente com os bastidores de Brasília, vai contar o que sabe. Outros companheiros, como o ex-senador Delcídio do Amaral, foram desqualificados pelo partido como um neófito que roeu a corda, porque não era um militante histórico. O antecessor de Palocci como braço-direito de Lula, José Dirceu, nunca deu sinais de que delataria o desvio de um palito de dentes sequer. O mesmo ocorreu com João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT e criador da expressão que definiu a propina petista: “pixuleco”.

Mais previsível do que trem-bala japonês, a direção do PT apressou-se em atacar, em nota, a decisão de Palocci, afirmando que ele “rendeu-se à chantagem da Lava Jato” e apresenta “acusações falsas” contra Lula. É do jogo. Seria espantoso se o partido dissesse qualquer coisa diferente. Ao trata-lo como traidor, o PT mostra que não tem interesse ou poder para ajudá-lo. E, em se tratando do PT, isso significa apenas uma coisa: o poder de Lula de intervir no rumo da Lava Jato não é mais o mesmo – e deve ficar ainda menor, após Palocci falar.