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Desaprovação a Moro bate recorde, enquanto Lula melhora. Isto é o Brasil...

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Chegamos ao ponto em que os injustos queimam o filme dos justos – para alegria de quem deseja escapar impunemente

Desaprovação a Moro bate recorde, enquanto Lula melhora. Isto é o Brasil...

Momento sombrio: baixa de Moro mostra retrocesso (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

Um aspecto importante das pesquisas de opinião divulgadas nesta quarta-feira (20) está passando batido pela imprensa e pelos comentaristas em geral. Trata-se do recorde de desaprovação ao juiz Sérgio Moro, captado pelo Barômetro Político Estadão-Ipsos. Segundo ele, Moro é desaprovado por 53% dos brasileiros, ante os 40% que o apoiam. Há dois destaques nisso. Primeiro: a desaprovação a Moro não superava sua aprovação desde fevereiro de 2016. Segundo: mesmo naquela ocasião, uma parcela bem menor dos entrevistados o reprovava – 33%, ante 10% de aprovação e 56% de quem não sabia ou não o conhecia o bastante para opinar. Logo, a avaliação negativa do principal nome da Lava Jato é recorde. Significativamente, a mesma pesquisa mostra que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está recuperando seu prestígio. Agora 45% dos entrevistados o aprovam, ante 43% no mês passado.

Ao contrário das previsões, a condenação de Lula por Moro prejudicou este e ajudou aquele. Desde julho, a aprovação a Lula subiu 16 pontos percentuais, enquanto sua desaprovação, hoje em 54%, caiu 14 pontos, segundo o Estadão-Ipsos. O fôlego do petista, pré-candidato do partido à Presidência, é puxado pelo Norte e Nordeste, seus naturais redutos eleitorais. Além disso, a campanha de vitimização do ex-presidente surtiu efeito em parte da população, que o vê como um perseguido político, impedido de voltar ao poder pela elite corrupta que deseja manter seus privilégios. Por último, parte dos brasileiros começa a sentir saudades da bonança dos tempos de Lula, diante dos dois anos de recessão, do crescimento desprezível deste ano e das reformas trabalhista e da Previdência.

Dedo de Lula

Já a corrosão da imagem de Moro é um pouco mais complexa. Já em setembro, quando o Estadão-Ipsos divulgou que sua aprovação caíra 9 pontos apenas em agosto, ao mesmo tempo em que sua desaprovação subira outros 9 pontos, o instituto de pesquisa afirmou que Moro perdera apoio em dois estratos importantes. O primeiro era o dos mais pobres, representados pelas classes D e E, na qual sua reprovação já era maior que a aprovação (47% a 39% respectivamente). O segundo eram as regiões Norte, onde a desaprovação saltara, somente em agosto, de 21% para 40%, e o Nordeste, de 34% para 55%.

É de se supor que esses dois processos continuaram em curso nos meses seguintes, enquanto outras regiões e estratos sociais passaram a desconfiar mais de Moro. Quando se considera apenas a desaprovação por classe social e região geográfica, a queda de Moro é a contrapartida lógica da ascensão de Lula. É justamente nessas regiões e camadas da população que o discurso de perseguido político repercute mais – e com alguma razão. Afinal, foi no governo Lula que as classes D e E sentiram o gosto de melhorar de vida e puderam sonhar com algum futuro.

Não adianta dizer que as sementes da recessão foram plantadas pela sucessora escolhida a dedo por Lula, Dilma Rousseff, nem que os primeiros sinais de crise surgiram já em 2014, em meio à campanha de reeleição da “presidenta”. Além disso, é muito abstrato, para boa parte dos brasileiros, explicar que Lula surfou na onda do crescimento chinês e da alta das commodities que vendemos para lá. Aos olhos de muitos brasileiros humildes, o fato é que Lula os ajudou a se tornarem mais cidadãos. Não é à toa que Moro, seu algoz na Lava Jato, seja repelido por eles.

Todas as togas são pardas

Mas, a essa parte “compreensível” da deterioração de Moro, acrescento uma hipótese particular: o juiz foi contaminado pelo mau humor geral do país em relação à Justiça e à impunidade dos envolvidos na Lava Jato. Pesa, aí, o desconhecimento de boa parte dos eleitores sobre a divisão de trabalho na operação. Uma coisa são os processos em primeira instância, a cargo de Moro em Curitiba, de Marcelo Bretas no Rio de Janeiro, e de Vallisney Oliveira em Brasília, entre outros. Nessas varas, a operação apurou e condenou centenas de corruptos. O problema são as instâncias superiores – com o primeiríssimo lugar para o Supremo Tribunal Federal. A capacidade do STF de livrar a cara de quem tem foro privilegiado só pode ser descrita à base de palavrões impublicáveis.

É justamente a proteção suprema de políticos e poderosos de vários tipos que irrita a população e arruína a imagem da Justiça. O mau cheiro exalado por Brasília, contudo, empesteia todo o sistema judicial e acaba atingindo quem não tem nada a ver. É o caso de Moro, cobrado por parte dos brasileiros por algo que simplesmente não pode fazer: condenar quem tem foro privilegiado. Chegamos ao ponto em que os injustos estão queimando o filme dos justos – para alegria de quem deseja escapar impunemente. Este é o Brasil que viveremos em 2018...