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Dilma: depois do PT gaúcho, PT mineiro tem tudo para abandoná-la

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Como explicar aos eleitores que, após o “golpe”, Dilma seria corneada na própria chapa por Fernando Pimentel e os golpistas do PMDB?

Dilma: depois do PT gaúcho, PT mineiro tem tudo para abandoná-la

(Foto: Lula Marques? AGPT)

"Tchau, querida!": cadê todo mundo que dizia apoiar Dilma?

Outrora “o” símbolo gritante do golpe da elite “branca e de olhos azuis” mancomunada com a desprezível imprensa e com o odioso grande capital, a ex-presidente Dilma Rousseff é o maior elefante na sala das articulações do PT para as eleições de 2018. Apeada do poder em 31 de agosto de 2016, após um tumultuado processo de impeachment na qual foi acusada de pedaladas fiscais, Dilma foi exposta pelo PT, no Brasil e no exterior, como o exemplo em carne viva do que acontece a quem luta contra os poderosos pelo bem do povo. Seria de se esperar, portanto, que os petistas lhes abrissem todas as portas para que desse a volta por cima em 2018. Afinal, embora cassada, a ex-presidente preservou seus direitos políticos e pode se candidatar ao que quiser. Quer melhor forma de o PT redimi-la, do que pedindo ao povo que a julgue (e a consagre) novamente pelas urnas? Mas... o PT... ah... o PT tem tudo para abandoná-la no ano que vem.

Para uma ex-presidente defendida com unhas e dentes nos tempos pré-impeachment, chega a ser melancólico como o partido a ignora. Primeiro, foi o PT gaúcho, que decidiu fechar sua chapa majoritária sem ela. O mais irônico é que o futuro de Dilma, no Rio Grande do Sul, foi decidido por, pelo menos, dois de seus ex-ministros. O primeiro é Pepe Vargas, que comandou três pastas durante os anos de Dilma no Planalto e, hoje, preside o PT gaúcho. O outro é Miguel Rossetto, seu ex-ministro do Trabalho, que será o candidato ao governo. Já Paulo Paim assegurou seu direito de concorrer à reeleição ao Senado. Os caciques locais também decidiram que a segunda vaga de senador, na chapa petista, será oferecida a partidos aliados, bem como o posto de vice-governador.

Apenas para manter as aparências, Vargas afirmou à imprensa que, se quiser, Dilma pode “reabrir” a chapa e pleitear a disputa ao Senado. Há duas considerações aí: se o PT realmente apostasse nela e a apoiasse de corpo e alma (e não apenas da boca para fora), a ex-presidente não precisaria passar por tal constrangimento. Seria uma questão de honra para o partido reabilitá-la pelas urnas e alçá-la a um cargo de peso, como o de senadora, por exemplo. A segunda ressalva é se Paulo Paim, uma vez abordado por Dilma, aceitaria de bom grado sair da disputa. Se já não o fez voluntariamente, nada indica que o faria a pedido de terceiros – ainda que viesse da “Coração Valente”.

Unha e carne

Por isso, cogita-se agora que Dilma se lançará ao Senado por Minas Gerais, Estado onde nasceu e do qual saiu para combater a ditadura na juventude. Em tese, seria até fácil: ela fez o tucano Aécio Neves, então seu rival na campanha de 2014 pela Presidência, passar vergonha por lá. Mineiro como ela, Aécio perdeu para Dilma no turno e returno da eleição. Além disso, Fernando Pimentel, um petista, governa Minas e já confirmou que disputará a reeleição. Dilma cairia como uma luva na chapa majoritária de Pimentel, não? E, ainda por cima, poderia repetir a surra em Aécio, já que ele concorrerá à reeleição ao Senado. Tudo certo, então? Não tão rápido! Afinal, estamos falando do PT... e o PT... ah, o PT...

Há um motivo desconcertantemente simples para o PT mineiro resistir a Dilma: o PMDB do golpista Michel Temer é aliado há anos do partido na terra das Alterosas. A última vez em que o PT disputou o governo mineiro sem os peemedebistas a tiracolo foi em 2002, quando Nilmário Miranda perdeu para Aécio Neves. Desde então, PT e PMDB são unha e carne no Estado. Em 2006, Nilmário Miranda ficou novamente em segundo lugar, tendo o peemedebista Zaire Rezende como seu vice na chapa. Para o Senado, a coligação lançou ninguém menos que Newton Cardoso, cacique do PMDB local, tendo dois suplentes petistas. Em 2010, os papéis se inverteram: o peemedebista Hélio Costa encabeçou a chapa ao governo, tendo o petista Patrus Ananias de vice. Em troca, Pimentel disputou o Senado. Em 2014, nova inversão: Pimentel elegeu-se governador, tendo como vice Antônio Andrade, peemedebista desde 1987. Para compensar, Josué Alencar, correligionário de Andrade, saiu para o Senado.

Que chifrada!

E agora? Bem, agora Pimentel já disse que: a) vai disputar a reeleição ao governo; b) quer o deputado federal Rodrigo Pacheco (PMDB) como vice. O secretário de Governo de Minas, Odair Cunha, que coordenará a campanha petista no ano que vem, já falou em alto e bom som que a relação com o PMDB por lá é “pródiga e positiva” e “foi fundamental no processo eleitoral que levou o governador Fernando Pimentel a vencer a eleição.” Para não deixar dúvidas sobre a camaradagem entre os partidos, Cunha arrematou, em entrevista a O Estado de Minas: “Nossa expectativa é de que o PMDB que ajudou o Pimentel a ser eleito e o PMDB que ajuda o governo estejam conosco no processo eleitoral do ano que vem.”

Mais claro do que isso, nem desenhando. Agora a pergunta embaraçosa: como, raios, Dilma teria espaço numa chapa em que o PT se aliará aos “golpistas” do PMDB? Como sustentar o discurso de que sofreu um golpe liderado pelo peemedebista Michel Temer? Como explicar que, passados apenas dois anos, Dilma seria corneada na própria chapa por seus companheiros e os golpistas? Como ninguém no PT tem uma resposta convincente para isso, a estratégia do partido é deixar o assunto para lá... e, junto com ele, vão-se também Dilma, o impeachment e o "golpe".