POLÍTICA

Dinheiro público é o novo pau-brasil, mas você virou um índio amestrado

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Numa perversa versão tupi-guarani da Síndrome de Estocolmo, os novos selvagens disparam suas flechas contra quem tenta alertá-los

Dinheiro público é o novo pau-brasil, mas você virou um índio amestrado

Paraíso: no Brasil, em se saqueando, tudo dá (Imagem: Johann M. Rugendas/Reprodução)

Políticos e magistrados são zelosos cumpridores das leis e fervorosos defensores dos direitos – sobretudo, das leis e direitos que os favorecem diretamente. Não faltam provas, nos últimos dias, dos abusos de uns e outros, ao se apropriarem imoralmente do dinheiro dos cidadãos brasileiros, na forma de incontáveis (e injustificáveis) auxílios. “Está na lei, portanto, não é errado, nem crime”, gritam juízes, deputados e senadores, seguidos por um coral de mugidos de seus bovinos defensores nas redes sociais. O paredão humano é ainda mais agressivo, quando se toca em Sérgio Moro e Marcelo Bretas, dois dos mais conhecidos membros da força-tarefa da Lava Jato.

O Estadão desta segunda-feira (05), por exemplo, mostra que os juízes do Rio de Janeiro têm direito a oito penduricalhos que inflam seu salário e estouram o teto constitucional de quase R$ 34 mil. Além do já conhecido auxílio-moradia, os magistrados fluminenses gozam de auxílio-educação para os filhos com até 24 anos, num valor mensal de pouco mais de R$ 1 mil. Mesmo na improvável hipótese de seu rebento estudar em escola pública, o togado contará com o dinheiro, a título de reembolso de uniforme e materiais escolares.

Justiça seja feita (sic), o Judiciário não é o único a se lambuzar com o dinheiro público como se fosse de ninguém. Segundo a Consultoria de Orçamentos, Fiscalização e Controle do Senado, a União gastou nada menos que R$ 817 milhões com o pagamento de auxílio-moradia no ano passado. A cifra envolve as despesas com todo mundo: Executivo, Legislativo e Judiciário. Para 2018, estão previstos gastos ainda maiores: R$ 831 milhões. Nos últimos oito anos, calcula a consultoria, os auxílios-moradia tiraram R$ 8 bilhões dos bolsos dos contribuintes – também conhecidos como eu, você, nós...

Todos com suas vergonhas expostas...

É claro que há situações em que a ajuda é necessária e justificável, mas não há como defender aqueles que o recebem, mesmo possuindo imóveis na cidade em que atuam como agente público. Somente na Câmara dos Deputados, 12 excelências são donas de imóveis em Brasília e, ainda assim, recebem auxílio-moradia. Sim, é o caso do presidenciável Jair Bolsonaro, que utiliza o dinheiro para “comer gente”, segundo ele próprio. É, também, a imoral situação de Sérgio Moro e de Marcelo Bretas, por mais meritória que seja sua atuação na Lava Jato.

Em comum, todos juram que estão apenas cumprindo a lei. Se está no papel, não é errado, como dizem seus fanáticos defensores. No Brasil Colônia, os exploradores portugueses saqueavam nossas riquezas em troca de miçangas e espelhinhos. Se soubessem como hoje tudo é muito mais fácil: os tupiniquins com camisas da Seleção Brasileira pintam a cara de verde-amarelo e lhes carregam nos ombros, sem pedir nada em troca. Numa perversa versão tupi-guarani da Síndrome de Estocolmo, os novos selvagens disparam suas flechas e tacapes contra quem tenta alertá-los. Ou voltamos muito no tempo... ou nunca sequer avançamos. Isso, sim, é um bom selvagem!