POLÍTICA

É a desigualdade, estúpido! Eis o tema econômico da eleição

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Selic, déficit primário, ajuste fiscal, teto de gastos... no dia a dia, os brasileiros só percebem um aspecto da economia: os ricos estão mais ricos, e os pobres estão mais pobres

Miséria é miséria em qualquer canto... algo de que os candidatos não podem se esquecer (Foto: Márcio Juliboni)
Miséria é miséria em qualquer canto... algo de que os candidatos não podem se esquecer (Foto: Márcio Juliboni)

Esqueça a tão festejada queda da taxa básica de juros (Selic) aos níveis mais baixos da história. Esqueça a austeridade fiscal para reduzir o déficit primário. Esqueça a expectativa de inflação abaixo do centro da meta neste ano. No dia a dia, os brasileiros não enxergam nada disso. Mas há algo que compreendem bem, e que o IBGE acabou de expressar em números dramáticos: a desigualdade entre ricos e pobres cresceu em todas as regiões, com exceção do Sudeste, entre 2016 e 2017. Traduzindo, após tanta agitação pelo impeachment de Dilma Rousseff, com o pretexto, entre outros, de que Michel Temer seria melhor, o que se viu de fato foi o aumento do fosso entre os de cima e os de baixo.

Para não descarregar um caminhão de números sobre você, pobre leitor, ficaremos em apenas dois. O índice Gini, que mede a desigualdade, deu um belo salto pelo país em 2017. Como se sabe, quanto mais próximo de zero, mais igualitário é o país; quanto mais próximo de 1, mais desigual é. O índice geral do Brasil ficou no mesmíssimo 0,549 registrado em 2016, às custas da redução da desigualdade no Sudeste de 0,535 para 0,529. É verdade que se trata da região mais rica, industrializada e populosa do país, concentrando 42% dos habitantes, mas e os outros 58%? Bem... no ano passado, a maioria desses brasileiros viu a diferença entre seu padrão de vida e o dos mais ricos se alargar. As maiores altas couberam ao Nordeste (de 0,555 para 0,567) e ao Centro-Oeste (de 0,523 para 0,536).

Contando centavos

O último número: no ano passado, os 10% mais ricos detinham 43% da renda nacional, enquanto os 50% mais pobres ficaram com 15%... o que isso significa na prática? Aí vai um exemplo bem didático. Imagine que toda a população brasileira some apenas 100 pessoas. Imagine, também, que todos os rendimentos (salários, aposentadorias, pensões, aluguéis, investimentos etc.) totalizem R$ 100. Numa sociedade rigorosamente justa, cada cidadão teria R$ 1 no bolso. Mas... na realidade, as 10 pessoas mais ricas terão, em conjunto, R$ 43 – o equivalente a R$ 4,30 por cabeça. Já as 50 pessoas mais pobres somarão R$ 15. Faça a conta. Bem, eu fiz para você: isso corresponde a R$ 0,30 por cabeça. Sim, sim, sim... cada uma terá de se virar com 30 centavos. Na prática, cada um dos 10% mais ricos do Brasil terminou 2017 com 14 vezes mais dinheiro no bolso que cada um dos 50% mais pobres.

Não é difícil, portanto, imaginar quão refratários estarão os eleitores, em outubro, diante do palavreado empolado da maioria dos candidatos, quando se trata de economia. Isso prejudicará sobretudo aquele que se apresentar como o nome do governo, com a ingrata missão de defender o “legado” de Michel Temer. Por ora, o candidato mais provável a essa guilhotina eleitoral é o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles. Mas os malabarismos conceituais também vão prejudicar quem quer que se atreva a contrariar o fato mais cristalino destas eleições: a maioria dos brasileiros está mais pobre e mais distante de um padrão digno de vida. Disfarçar isso com jargões econômicos não atrairá nenhum voto. Muito pelo contrário...