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Eleições 2018: ainda existirão eleitores moderados no Brasil até o ano que vem?

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Doria, um ex-incendiário ainda fumegante, agora corteja os eleitores de centro, mas precisa correr contra o tempo – a tendência é que a maior parte enlouqueça até a eleição

Eleições 2018: ainda existirão eleitores moderados no Brasil até o ano que vem?

É impossível não notar a guinada estratégica de João Doria na corrida presidencial. O prefeito de São Paulo passou nove meses batendo no PT, a fim de cair nas graças da direita como o anti-Lula. O problema é que, aparentemente, esse papel foi tomado por Jair Bolsonaro, a ponto de o ex-capitão do Exército aparecer em segundo lugar nas pesquisas eleitorais. Agora, Doria busca se reposicionar no maior e mais óbvio segmento: o centro, composto pelos eleitores mais moderados e, portanto, sem uma ideologia forte. Traduzindo: numa eleição em que a polarização entre esquerdistas e direitistas promete incendiar o Brasil, o tucano (um ex-incendiário ainda fumegante) quer se apresentar agora como bombeiro. A dúvida é se restará algum eleitor moderado até outubro de 2018.

Em entrevista publicada pelo Estadão desta segunda-feira (16), Doria reafirmou aquilo que disse na visita a Belém do Pará na semana passada: “Eu sou um liberal. A posição mais ao centro é a mais equilibrada para um país que precisa de paz e crescimento econômico.” Em tese, pilhas de artigos de cientistas políticos, nacionais e estrangeiros, mostram que, para vencer uma eleição, o candidato precisa moderar seu discurso, a ponto de conquistar a massa de eleitores sem ideologia definida – o famoso centro. Neste sentido, Doria está dando os passos recomendados por qualquer cartilha política, ao moderar seu discurso.

Agora ou nunca

Esta pode ser a última cartada de Doria para emplacar sua candidatura ao Palácio do Planalto, já que a extrema-direita e a direita mais conservadora tende a convergir para Bolsonaro. Já a esquerda ainda sonha com Lula lá no ano que vem – e mesmo os dissidentes não votariam em Doria, como provam as articulações de alguns partidos de esquerda para encontrar um plano B, caso o petista seja impedido de concorrer devido à condenação em segunda instância pelos crimes denunciados pela Lava Jato.

A partir dele, há três finais possíveis. No primeiro, Doria acerta o tom, cai no gosto dos eleitores moderados de centro, amplia convincentemente sua base eleitoral e se lança ao Planalto, seja pelo PSDB de seu padrinho político, o governador paulista Geraldo Alckmin (que sonha com o Planalto também), seja por outra legenda. No segundo, outro candidato qualquer ocupa esse espaço de centro, superando Doria. Neste caso, ou o prefeito paulistano desiste de concorrer em 2018, ou volta a radicalizar o discurso para atrair eleitores que, por enquanto, querem Bolsonaro. No último e mais preocupante desfecho, Doria ou qualquer presidenciável moderado naufraga, simplesmente, porque a polarização pré-eleitoral é tamanha, que o cenário político induz irresistivelmente os eleitores a grudarem num dos extremos ideológicos, como um imenso ímã. Isso esgarçaria o Brasil, a ponto de rachá-lo e desbaratar o centro.

Tempo contado

Há quem diga que, até outubro, os ânimos se acalmarão e as pessoas discutirão política com menos fígado e mais cérebro, mas, até onde a vista alcança, o ponteiro parece apontar para o outro lado – o da radicalização crescente. Há, ainda, quem observe que não se deve tomar como exemplo o discurso enfático dos militantes nas redes sociais. Uma: porque muitos são militantes profissionais. Duas: porque muitos são haters, trolls ou, simplesmente, robôs. No mundo de carne e osso, as pessoas relutam em expor suas intimidades político-ideológicas. Mas, no escurinho sigiloso da cabine de votação, o eleitor fica livre para votar com todos seus preconceitos, pós-conceitos, ideologias, medos e certezas.

Se alguém quiser conquistar eleitores moderados, deve correr contra o tempo. É provável que a eleição do ano que vem enlouqueça a maior parte das pessoas. Além disso, terá que gastar muita saliva para continuar cativando os brasileiros com um discurso que, para outros candidatos, será apenas uma água-com-açúcar que não resolve nada. Aquele que se dispuser a ocupar o centro será, obviamente, bombardeado pelos dois extremos da política. E o bombardeiro será pesado. Esta será uma eleição em que até os moderados ficarão de cabeça quente. Para a alegria dos marqueteiros e a desgraça do nosso futuro.