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Eleições 2018: prepare-se para três meses de blefes e encenações

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As convenções nacionais para confirmar as candidaturas ocorrerão de 20 de julho a 05 de agosto. Até lá, muita atuação digna de Oscar (ou do Framboesa de Ouro) será vista por aí

Eleições 2018: prepare-se para três meses de blefes e encenações
Canastrice política: muito pré-candidato não convence nem a mãe na corrida ao Planalto (Divulgação/Framboesa de Ouro)

Houve importantes movimentações políticas de pré-candidatos à presidência nos últimos dias. O ex-capitão Jair Bolsonaro finalmente encontrou um partido para chamar de seu – o PSL; Ciro Gomes e Guilherme Boulos foram oficializados como presidenciáveis pelo PDT e PSOL, respectivamente. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, assumiu seu desejo de concorrer pelo DEM. Com isso, o quadro eleitoral começa a se desenhar, e os cálculos já indicam até 19 postulantes. Desse total, 11 são os mais levados a sério por políticos, analistas e pela imprensa. Mesmo que você já tenha um(a) favorito(a), não se entusiasme com o que ele ou ela fará nos próximos três meses. Ataques a adversários, declarações contundentes, promessas messiânicas... a maioria disso não passará de blefe e encenação. Tudo com o objetivo de medir forças e atrair rivais para alianças. O que importa, mesmo, é quem registrará sua candidatura no TSE até 15 de agosto. E, francamente, até o momento, ninguém sabe – nem os próprios pré-candidatos.

O motivo é que falar grosso e fazer proselitismo em redes sociais ou via imprensa não viabiliza nenhum cristão (ou ateu). Uma candidatura é uma somatória de fatores, e o nome estampado na urna é apenas um deles. Há, pelo menos, quatro itens importantes: a) as intenções de votos de cada um; b) a rejeição de cada um; c) tempo de TV; e d) palanques estaduais. São com essas fichas que os 11 presidenciáveis mais sérios estão sentados à mesa neste momento, participando do pôquer político que definirá quem, de fato, concorrerá ao Planalto. E é óbvio que cada um chega a este momento com forças e fraquezas diferentes. Estar na urna eletrônica em outubro dependerá de sua habilidade de preservar as primeiras e atenuar as últimas. Para isso, valerá a sinceridade de corrigir erros, ou o blefe (eu, na verdade, prefiro o termo mau-caratismo) de fingir que é mais forte do que a realidade.

Jogando pra galera

Há situações para todos os gostos. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, lidera as intenções de voto, com 34% a 37% das preferências, conforme o cenário apresentado pelo Datafolha. Outro trunfo é seu tempo de TV. Mesmo naufragando por causa da Lava Jato, o PT mantém-se como a segunda maior bancada na Câmara, com 57 deputados. Trata-se de um patrimônio importante para definir o tempo de TV no horário eleitoral, bem como o montante do fundo partidário e do fundo eleitoral a que terá direito. A janela de trocas partidárias, que fechará em 7 de abril, não mudará muito esse quadro. Na melhor das hipóteses, o partido deve acrescentar mais um deputado à sua carteira.

Contra Lula, porém, pesam vários e conhecidos fatores. O primeiro deles é sua alta taxa de rejeição. Segundo a última pesquisa CNT/MDA, 46,7% dos eleitores não votariam nele, nem pintado de ouro. É verdade que esse percentual já foi maior. Em setembro, era de 50,5%. Mas, convenhamos, não é nada animador. A origem da repulsa do eleitorado a Lula é mais do que óbvia: seu envolvimento na Lava Jato e sua condenação em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá. Outros processos, como o do sítio de Atibaia, devem ser decididos nos próximos meses. Oficialmente, Lula já é um ficha suja, mas ainda nutre a esperança (ou a cara de pau?) de ser inocentado no STJ ou no STF (coisa que mais de um jurista já disse ser impossível, já que essas cortes não costumam revisar o mérito de sentenças).

Mito ou verdade?

No caso de Jair Bolsonaro, o balanço de fichas é outro. Vice-líder (com Lula) ou líder (sem Lula) nas pesquisas, com 15% a 20% de apoio conforme o cenário proposto, o ex-militar precisa equilibrar todos os outros fatores, se não quiser morrer na praia. Sua taxa de rejeição, 50,4%, é maior que a do petista. E, ao contrário dele, Bolsonaro é cada vez mais rejeitado, à medida que o tempo passa. Em setembro, segundo a CNT/MDA, a repulsa era de 45,4%. Outro item em que é fraco é tempo de TV, justamente porque o PSL, para o qual se mudou, possui uma bancada pequena. É verdade que oito deputados o acompanharam em sua migração para o partido. Com isso, a bancada na Câmara saltou de 3 para 12 membros – e espera-se que chegue a 20 até o fim da janela. Se isso se confirmar, Bolsonaro terá uma força equivalente à do PDT de Ciro Gomes, hoje com 21 deputados.

O problema é que ninguém é bobo em política. Os aliados de Bolsonaro só desembarcaram no PSL, porque têm a promessa de controlar diretórios estaduais e, portanto, receber a maior parte do fundo partidário e do fundo eleitoral para se reelegerem. O movimento já causa rachas no partido, como é o caso de Minas Gerais. Alguns filiados avaliam processar Bolsonaro e o diretório nacional pela sanha com que os bolsonaristas estão derrubando lideranças regionais. Pode ser até que Bolsonaro vença a briga, mas qualquer um que já acompanhou uma campanha sabe que são os diretórios estaduais e municipais que carregam o piano em eleições nacionais: montam palanques, mobilizam a claque em comícios, distribuem santinhos, fazem divulgação... e quem se empenhará pelo ex-militar, após ser enxotado? Acrescente-se a isso que chapas poderosas possuem alianças com outros partidos – algo distante de Bolsonaro, até onde se enxerga.

Vai levar ou quer que embrulha?

Chegamos, então, àquela geleia de pré-candidatura de centro. Rodrigo Maia conta com uma máquina partidária considerável, com 33 deputados. Se negociar bem, poderá encerrar abril com 45. São consideráveis tempo de TV e dinheiro público para campanha. Sua maior missão, portanto, é sair do anonimato, com seu pífio 1% de intenção de votos. Há quem veja, no seu desejo de disputar o Planalto, apenas um blefe para vender caro seu apoio a um candidato viável. Para quem é um mistério. Primeiro, porque uma possibilidade seria o tucano Geraldo Alckmin, que não morre de amores pelo presidente Michel Temer, mas não lhe bateu a porta na cara. Com 46 deputados federais, governadores e prefeitos de cidades importantes, o PSDB dificilmente desistirá de concorrer, mas Alckmin patina abaixo dos dois dígitos e sua rejeição chega a 51%.

Outra opção seria o “candidato do governo” – aquele que ainda não existe. O ministro da Fazenda Henrique Meirelles e o próprio Temer acariciam a ideia de representar o “legado” (sic) do atual governo. Mas o primeiro só encanta o mercado, tem dificuldades para falar com o povão e sua intenção de voto é pífia. Temer, por sua vez, dispensa comentários, com sua impopularidade recorde e sua imagem de vampirão circulando no Carnaval. Assim, Maia, do DEM, tem uma boa mercadoria (tempo de TV e recursos para campanha) sem um comprador à vista. Pode morrer com o produto na gôndola ou pode blefar e ir com suas pretensões até o fim, negociando apoio apenas no segundo turno.

Quem vai com ele?

Ciro Gomes, que se vende como uma alternativa natural a Lula, possui uma boa bancada, mas esbarra em articulações estaduais e em alianças nacionais. Por enquanto, é apenas um lobo solitário incapaz de unir a esquerda. Os maiores exemplos dessa falta de empolgação que causa são as pré-candidaturas de Marina Silva (Rede), Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D’Ávila (PCdoB). Some-se a isso, o fato de que sua candidatura é tão instável, que vai de sexto a segundo colocado, conforme o cenário apresentado pelas pesquisas – com o agravante de que 48% do eleitorado não votaria nele de jeito nenhum, segundo a pesquisa CNT/MDA.

É claro que, se até este que vos escreve consegue chegar a estas conclusões, os pré-candidatos sabem disso de cor-e-salteado. Mas isso não os impedirá de encenarem seus papeis nos próximos três meses. Somente por volta de junho, estará mais claro quem realmente tem condições de disputar. As convenções nacionais para confirmar as candidaturas ocorrerão de 20 de julho a 05 de agosto. Até lá, muita atuação digna de Oscar (ou do Framboesa de Ouro) será vista por aí.