POLÍTICA

Eleições: desiludidos, brasileiros simplesmente não irão votar

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Desilusão com a política não deve virar voto de protesto; o mais provável é que vire um domingão no sofá com a família, a pipoca e os filmes na TV

Preguiiiiiiça.... sério que tem de sair de casa, pegar fila e votar? (Foto: gRuGo/Flickr)
Preguiiiiiiça.... sério que tem de sair de casa, pegar fila e votar? (Foto: gRuGo/Flickr)

Ainda sobre a última pesquisa eleitoral, divulgada pela CNT/MDA na segunda-feira (14), as consultorias políticas quebram a cabeça para decifrar o destino de quem está cansado, desiludido ou, em bom português, de saco cheio com os nossos políticos. É o que, pomposamente, os analistas chamam de “sentimento anti-establishment”. Por ora, a aposta é que essa repulsa aos políticos tradicionais ajudará a eleger nomes que se vendem como “anti-sistema”. A Eurasia Group, uma das maiores consultorias políticas do mundo, acredita que este é o caso de Jair Bolsonaro, o ex-capitão do Exército que lidara a corrida presidencial, após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, até que ponto, estar cansado da política significa chutar o balde e eleger o primeiro maluco que passar na calçada?

Parte da resposta está na própria pesquisa da CNT/MDA. Lá na página 36, são apresentadas as características que os eleitores buscam no novo presidente. Como os entrevistados poderiam citar até três opções, a soma ultrapassa os 100%. Em primeiro lugar, está a tão batida honestidade (65,6% de menções), seguida pela capacidade de apresentar novas propostas para o país (47,7%) e pela trajetória de vida sem máculas (26,4%). Ser um outsider, isto é, não ser um político profissional vem apenas em quarto lugar, com 12,1% das respostas. É verdade que alguém pode dizer que os três requisitos mais citados embutem, implicitamente, uma ideia de que somente um outsider pode reunir tais condições, já que um político de carreira já estaria desonrado, maculado e incapaz de trazer novas ideias. Mas, como todo pressuposto, isso ainda precisa ser provado.

Não compensa votar

Outra parte da resposta não está na pesquisa. Encontra-se na taxa de crescimento das abstenções nas últimas eleições. Segundo o TSE, desde 2006, o número de eleitores que simplesmente deixam de votar vem crescendo. Era de 16,8% naquele ano e chegou a 21,6% no segundo turno das eleições municipais de 2016. E, se servir de prévia do que pode vir, deve-se lembrar ainda que, no ano passado, metade dos eleitores do Estado do Amazonas decidiu se abster na eleição para escolher um governador-tampão, após o vencedor de 2014, José Melo (PROS) e seu vice, Henrique Oliveira, serem cassados por compra de votos.

Quando se considera que, na última pesquisa CNT/MDA, o número de brancos, nulos e indecisos soma cerca de 50%, conforme o cenário apresentado, e que os principais presidenciáveis enfrentam taxas de rejeição da mesma magnitude, é possível afirmar que a desilusão com a política não se reverterá, necessariamente, num voto de protesto em algum candidato outsider. Neste sentido, a liderança de Jair Bolsonaro deve-se, muito mais, à sua capacidade de mobilizar cerca de 20% da população, que lhe é extremamente fiel, do que em seu poder de atrair o voto dos inconformados. Se eu pudesse arriscar um chute, neste momento, diria que a maior parte do sentimento “anti-establishment”, isto é, do saco cheio dos brasileiros com tudo isso que está aí, se manifestará de modo bem mais prosaico: com todo mundo em casa no domingo da eleição, assistindo à TV e comendo pipoca. Votar? Para que, perguntarão os desiludidos. Todos os candidatos são iguais...