POLÍTICA

Eleições: o verdadeiro líder nas pesquisas são os brancos, nulos e indecisos

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Bolsonaro empacou na casa dos 20% e é cada vez mais rejeitado, mas isso não significa que ele esteja politicamente liquidado. Não é hora de baixar a guarda

Metade dos brasileiros não quer ver essa máquina em outubro - e isto é ruim (Foto: Divulgação/TRE-RJ)
Metade dos brasileiros não quer ver essa máquina em outubro - e isto é ruim (Foto: Divulgação/TRE-RJ)

Há certas coisas realmente incompreensíveis na imprensa brasileira. Ao longo desta segunda-feira (14), pipocaram manchetes destacando a liderança de Jair Bolsonaro (PSL) na pesquisa divulgada pela CNT/MDA. No geral, as chamadas destacaram que, sem Luiz Inácio Lula da Silva no páreo, o ex-capitão do Exército assume a dianteira. Ressaltaram também que, no segundo turno, Bolsonaro venceria todos os adversários, com exceção da ex-senadora Marina Silva (Rede), com quem está rigorosamente empatado. Quem lesse os títulos de sites ficaria com a impressão de que o candidato do “tiro-porrada-e-bomba” já está com uma mão na faixa presidencial. Mas... alto lá, cidadão. Esqueça o misto de preguiça, pressa e sensacionalismo dos coleguinhas jornalistas e olhe de novo: o verdadeiro líder nas pesquisas são os brancos, nulos e indecisos.

Nas três simulações de primeiro turno sem Lula, é verdade que Bolsonaro surge em primeiro. Mas suas intenções de voto oscilam entre 18,3% e 20,7%, conforme os rivais apresentados. Na situação que lhe seria mais favorável, os concorrentes seriam Marina Silva (16,4%), Ciro Gomes (12%), Fernando Haddad (4,4%) e Henrique Meirelles (1,4%). Sim, você fez a conta certa: isso representa 54,9% dos eleitores. Onde estão os outros 45,1%? Simples: 31,7% dos entrevistados pretendem votar em branco ou anular neste cenário; outros 13,4% estão indecisos. Somados, são mais que o dobro do número de fãs de Bolsonaro. Convenhamos, o ex-capitão está longe da aclamação popular que as manchetes nos induziriam a pensar, e mais distante ainda da santificação a que alude seu exército de fanáticos, trolls, robôs, haters e fakes nas redes sociais.

Mesmo nas sondagens de segundo turno, a maior “vitória” de Bolsonaro ocorreria num confronto contra o atual presidente, Michel Temer. Seria um placar de 34,7% a 5,3%. Fala sério: por que, raios, a CNT/MDA se dá ao trabalho de incluir cenários cuja probabilidade de acontecer é tão baixa, quanto a de eu (sim, este que lhes escreve) chegar ao segundo turno da eleição de outubro. Se não consegue mais do que sete pontos percentuais a mais que o seu pior cenário (um empate de 27,2% com Marina Silva) sobre o presidente mais impopular da história, não dá para dizer que o pré-candidato do PSL é um sucesso.

O que importa

Por isso, é preciso olhar os números que realmente importam (e que, sabe Deus por que, foram engolidos pelos coleguinhas apressados). Primeiro: há um ano, Bolsonaro empacou no patamar dos 20% de intenção de votos no primeiro turno. Segundo: na única simulação da CNT/MDA comparável com períodos anteriores, o fato é que o ex-capitão regrediu (graças a Deus!!!) de 20% para 18,3% entre março e maio. Terceiro: num eventual embate com Alckmin no segundo turno – um cenário factível -, ele cresceu de 26,7% para 27,8% das intenções no mesmo período. Isso, contudo, deve-se muito mais a um demérito de Alckmin, cujo apoio recuou de 24,3% para 20,2%, que à força de Bolsonaro. Basta ver que, na mesma simulação, os brancos e nulos subiram de 41,6% para 42,5%, e os indecisos, de 7,4% para 9,5%.

Quarto: mesmo contra o cachorro morto do Temer, Bolsonaro andou para trás nos últimos dois meses. Baixou de 36% para 34,7%, enquanto o emedebista foi de 5,7% para 5,3%. Quem cresceu? Óbvio: brancos, nulos e indecisos, que passaram de 58,3% para 60%...

Quinto: à medida que Bolsonaro se torna mais conhecido, seu potencial de votos não muda. Pelo contrário. Em março, segundo a CNT/MDA, 14,2% dos eleitores não o conheciam ou não sabiam o que responder diante de seu nome. Dos 85,8% que sabiam de quem se tratava, 13,3% disseram que Bolsonaro seria o único em quem votariam; 22,1% poderiam votar nele; e 50,4% não votariam de jeito nenhum. Dois meses depois, com muitas fake news, ataques de bolsominions fanáticos em redes sociais, grosserias e patadas do “mito”, o que se constata? Uma queda para 13,1% dos que votariam nele com certeza; a estagnação em 22,1% dos que poderiam votar; e um crescimento para 52,8% dos que o rejeitam totalmente. O que mudou? O número de eleitores que não o conhecem baixou para 13%. Isso indica que, à medida que vai divulgando seu nome, vai, também, impressionando mal a maior parte dos eleitores.

Não é hora de relaxar

Isso significa que Bolsonaro está morto e enterrado? Nem de longe. A corrida presidencial só começa, para valer, após a Copa do Mundo e a propaganda eleitoral gratuita. Além disso, teme-se que seu séquito de robôs emporcalhem as redes sociais com o pior do mau-caratismo e das fake news. Outro ponto é que é uma questão de decência combater um candidato que se orgulha de defender alguns dos piores momentos da nossa história, com torturas e perseguições políticas. É um dever que qualquer um que sonhe com um país melhor impedir que ideias torpes como a dele prevaleçam – coisinhas como só mulher bonita merece ser estuprada, pode-se usar verba pública para “comer gente”, policial bom é policial que mata e presidente não precisa entender de economia. Só para ficarmos no básico.

Mas, sobretudo, uma altíssima taxa de brancos, nulos e ausências não invalidará a eleição. Mesmo que mais da metade dos brasileiros decida descer para a praia nos domingos de votação, Bolsonaro ainda corre o risco de se eleger com o resultado mais minguado e vergonhoso desde a redemocratização. Você, que tem um pingo de consciência, pode até estar muito desiludido (e com razão) com os políticos atuais. Mas, acredite: você ficará bem pior, se sua omissão ajudar a eleger alguém como Bolsonaro. Depois, não adianta chorar.