POLÍTICA

Eleitores de Bolsonaro confirmam: a verdade não importa mais

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A cabeça dos bolsonaristas funciona como o famoso nó corrediço: quanto mais o puxamos na direção da verdade, mais preso e apertado ele se torna em torno da mentira

Deixou barato: para eleitora, Bolsonaro deveria ter estapeado Maria do Rosário por "defender assassino" (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)
Deixou barato: para eleitora, Bolsonaro deveria ter estapeado Maria do Rosário por "defender assassino" (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

Quando se trata dos eleitores do presidenciável Jair Messias Bolsonaro, uma coisa fica cada vez mais clara: de fato, a verdade não lhes importa. Basta a crença de que Bolsonaro é a única pessoa capaz de colocar ordem no Brasil. É o que comprova uma mesa-redonda realizada pela Folha de S.Paulo com oito bolsonaristas de diversos perfis – desde um jovem desempregado da periferia paulistana, passando por sua mãe manicure, até executivos com bom poder financeiro. Quanto mais confrontados com fatos desabonadores sobre Bolsonaro, mais aguerridos se tornaram ao defendê-lo. A cabeça desses eleitores funciona como o famoso nó corrediço: quanto mais o puxamos, mais firme e apertado ele se torna.

Numa perversão da lógica, os defeitos de Bolsonaro viraram suas maiores qualidades para essas pessoas. Entre eles, está seu desequilíbrio emocional, interpretado pelos fãs como a transparência e a autenticidade que os políticos tradicionais perderam sob camadas de marketing e interesses escusos. Sua mediocridade política, com décadas de carreira parlamentar e nenhum projeto aprovado, transforma-se em resistência a fazer parte do jogo sujo da política ordinária. Ser marginalizado, neste sentido, seria o preço que Bolsonaro paga por não se vender.

Café pequeno

Sua evolução patrimonial e o uso do auxílio-moradia para “comer gente” são relativizados no melhor estilo “os outros são bem piores”. “Se for falar de moral e pegar o Congresso, me fala um político que tá o tempo do Bolsonaro e tem a ficha dele, que não tem nenhum um escândalo”, rebate uma das participantes da mesa-redonda, Maria Cristina Gonçalves Szabó, de 55 anos, e que trabalha com “formação de imagem política”, seja lá o que signifique. Outro, Raphael Daniele, é mais direto: “Os caras vão de um bilhão para cima; não se compara.”

Nesta semana, após dois meses de espera na encomenda pré-lançamento, recebi o livro Post-Truth, do filósofo Lee McIntrye, um especialista em pós-verdade que leciona na Universidade de Chicago e em cursos de extensão de Harvard. Publicado pelo The MIT Press como parte da série The MIT Press Essencial Knowledge, a obra nos lembra o básico: acreditar numa mentira ou, pelo menos, recusar-se a crer na verdade carrega um grande componente emocional. Ou, nas palavras de McIntrye:

Conforto psicológico

“O principal critério [para selecionar os fatos] é o que favorece suas crenças preexistentes. Não se trata de abandonar os fatos, mas de uma corrupção do processo pelo qual os fatos são criteriosamente selecionados e razoavelmente usados para modelar as crenças de alguém sobre a realidade. De fato, a rejeição disso mina a ideia de que algumas coisas são verdadeiras, a despeito de como nos sentidos com elas, e que é de nosso interesse (e do de nossos legisladores) tentar encontrá-las.” O grifo é do próprio McIntrye.

Assim, pouco importam os argumentos racionais contra a eleição de Bolsonaro e a revelação de suas derrapadas com dinheiro público. Seus eleitores simplesmente negarão a realidade até o fim (como fazem, justiça seja feita, parte dos eleitores de esquerda). Em 1984, de George Orwell, o governo precisava mentir para enganar e dominar os cidadãos. No mundo da pós-verdade, isto nem é necessário: as pessoas simplesmente rejeitarão a verdade em nome da mentira que lhes for mais confortável.