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Estamos condenados a ser a República das Malas?

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Os brasileiros são simplesmente incapazes de seguir a lei, se não gostarem dela (e, geralmente, não gostam)

Estamos condenados a ser a República das Malas?

(Imagem: Jornal Hoje/YouTube/Reprodução)

Houve um tempo em que o maior escândalo era pegar um assessor parlamentar com dólares na cueca. Visto de hoje, o episódio parece um esquete de humor no pior estilo pastelão. Nos últimos meses, aprendemos que envelopes de tamanho ofício comportam R$ 200 mil e mochilas e malas de pequeno porte são ideais para transportar R$ 500 mil. Mesmo caixas de uísque podem ocultar propinas. O último exemplo do novo uso que os políticos encontraram para as malas ocorreu nesta terça-feira (5), quando a Polícia Federal encontrou oito delas, além de caixas de papelão, cheias de dinheiro atribuído a Geddel Vieira Lima, ex-ministro de Michel Temer, em um apartamento em Salvador. Até as 21h30, a equipe da PF já havia contado R$ 40 milhões. Será que o Brasil está condenado a deixar de ser uma República de Bananas para se tornar a República das Malas?

O senso comum diria que não. Basta que se combata a corrupção com pulso firme e que corruptos e corruptores sejam punidos com rigor, confirmando que ninguém está acima da lei, por mais alto que se encontre na escala de poder. É uma resposta razoável, claro, mas, infelizmente, esbarra num obstáculo fundamental e terrível: os brasileiros, simplesmente, são incapazes de seguir leis. Não... não se trata de implicância ou de crítica boba. Trata-se da constatação de um dos mais agudos observadores da nossa alma: o historiador Sérgio Buarque de Holanda.

De coração

Em seu clássico Raízes do Brasil, um livro que deveria ser leitura obrigatória nas escolas, Buarque de Holanda explica de onde vem a nossa atávica aversão a seguir leis e suas óbvias consequências. Primeiro, é preciso desfazer um grande engano, fruto da má interpretação de uma ideia fundamental do autor: o famoso “homem cordial”. Quando ele diz que os brasileiros são cordiais, não está, nem de longe, afirmando que somos bonzinhos, hospitaleiros e recebemos gringos com sorrisos, caipirinha, samba e futebol. Cordial, para Buarque de Holanda, quer dizer movido pelo coração. Ou seja: somos movidos pela emoção. Ou, segundo suas próprias palavras:

“Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. (...) Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. (...) Nada mais significativo dessa aversão ao ritualismo social, que exige, por vezes, uma personalidade fortemente homogênea e equilibrada em todas as suas partes, do que a dificuldade em que se sentem, geralmente, os brasileiros, de uma reverência prolongada ante um superior. (...) O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade. (...) Um negociante de Filadélfia manifestou certa vez a André Siegfried seu espanto ao verificar que, no Brasil como na Argentina, para conquistar um freguês tinha necessidade de fazer dele um amigo.”

Aos amigos, tudo; aos desconhecidos, o desprezo

Essa necessidade brasileira de estabelecer vínculos afetivos entre as pessoas, em vez de seguir normas abstratas de convívio social, como na Europa e na América do Norte, é baseada, segundo Buarque de Holanda, no espírito ibérico da Idade Média, que privilegiava os laços familiares sob o poder patriarcal.

As consequências disso são óbvias. Primeiro, em pleno século XXI, ainda somos incapazes de seguir leis, se não SENTIRMOS que elas são corretas (olhe aí a emoção julgando como devemos nos comportar). Eis por que há leis que “pegam” e leis que “não pegam” neste país. Segundo, não damos o devido valor à sociedade, pois preferimos estar entre nossos entes queridos (seja a família, sejam os amigos). Basta ver como a lei do silêncio é quebrada com irritante frequência. A confraternização com quem nos é querido se sobrepõe ao direito dos “não-amigos” ao descanso.

E, terceiro, se somos movidos pela emoção e privilegiamos laços de amizade, quem está fora do nosso círculo não merece crédito nem atenção. Assim, tudo o que é “público” é do “povo”, e se é do “povo” não é de ninguém. De jogar lixo na rua a roubar dinheiro público, as pessoas se sentem no direito de fazer o que bem quiserem. Afinal, o “outro” é só um desconhecido por quem não sentimos nada – nem simpatia, nem amizade, nem compaixão. Portanto, ele que se lixe. O importante é ser feliz – de preferência, repartindo malas de dinheiro entre os amigos e desrespeitando o direito dos outros.