POLÍTICA

“Estamos em guerra”: por que um eleitor de Bolsonaro espalha fake news

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Eis um exemplo do porquê sou cético sobre a eficácia de uma lei de combate à mentira na internet

“Estamos em guerra”: por que um eleitor de Bolsonaro espalha fake news

"This is the end...": às favas, qualquer escrúpulo nas eleições (Apocalypse Now/Divulgação)

Alguém já disse (supõe-se que seja o jornalista americano Boaker Carter, mas não há certeza) que, em tempos de guerra, a primeira vítima é a verdade. Na era do fake news, essa expressão em inglês para uma velha conhecida – a mentira vendida como fato jornalístico -, e às vésperas da eleição mais complicada desde a redemocratização brasileira, a afirmação de Carter preocupa mais do que nunca. Ao mesmo tempo, acadêmicos, juristas, políticos, jornalistas e opiniudos em geral queimam a cabeça para inventar modos de inibir a divulgação de notícias falsas, bem como punir os responsáveis.

De concreto, até agora, houve o anúncio de que a Polícia Federal, o TSE e o Ministério Público criarão um grupo de combate ao fake news, com vistas às eleições de outubro. Em paralelo, o Congresso debate leis para coibi-la. Há muitas críticas (algumas justas, outras não) sobre essas iniciativas. O que mais me preocupa, contudo, é que sou cético, quanto à eficácia dessas medidas, por um motivo simples: muita gente não tem nenhum escrúpulo, nem um pesinho na consciência, de divulgar deliberadamente mentiras pela internet.

Palácio de mentirinha

Testemunhei, nesta terça-feira (16), um exemplo bem didático. Meu antigo mestre de kung fu, dono da maior rede de franquias desta arte marcial no país, é um eleitor convicto e militante de Jair Bolsonaro. Via de regra, defende veementemente seu candidato de críticas de qualquer um nas redes sociais, incluindo comentários em vários artigos publicados por mim aqui no Storia. Até aí, paciência... faz parte da democracia defender suas preferências, mesmo que eu não concorde com nada do que Bolsonaro representa, e me preocupe muito com sua patente incompetência para comandar o Brasil nos próximos anos.

“Estamos em guerra”: por que um eleitor de Bolsonaro espalha fake news

Mas, ontem, fiquei surpreso, quando meu ex-mestre compartilhou, no Facebook, uma variação de um meme bastante conhecido: aquele que apresenta a sede da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) como a mansão que um dos filhos de Luiz Inácio Lula da Silva possuiria numa fazenda avaliada em R$ 50 milhões.

Fake por fake

Com 5 mil amigos e seguidores na plataforma, não demorou para que ele fosse alertado, respeitosamente, por um deles (não fui eu) de que se tratava de um descarado fake news. Para minha surpresa, sua resposta foi justificar um erro com outro – se “eles” (ou seja, os opositores de Bolsonaro) podem, então seus apoiadores também podem.

“Estamos em guerra”: por que um eleitor de Bolsonaro espalha fake news

Seu interlocutor, ao que parece, também simpatiza com o ex-militar, mas tentou argumentar que não se poderia cair na vala comum dos erros que se criticam nos outros. A resposta do mestre foi taxativa: “Estamos em guerra.”

“Estamos em guerra”: por que um eleitor de Bolsonaro espalha fake news

O episódio nos lembra de muito do que veremos nos próximos meses. É verdade que muita gente, por falta de informação, de desconfiômetro ou por inocência, compartilha notícias falsas como se fossem verdadeiras. Segundo um estudo de meados do ano passado, nada menos que 12 milhões de brasileiros cometeram esse erro no período analisado. Mas, no meio dessa massa, há muita gente bem informada que sabe o que está fazendo e não parará, diante de reprovações ou correções. Além disso, não acredito que a lei possa inibi-los, pois, seu “argumento” é de que o fake news é um instrumento legítimo para reequilibrar o jogo eleitoral, tornando-o mais justo. Ressalte-se que essa desculpa será tanto mais forte, entre bolsonaristas, quanto menor for o tempo de TV do candidato, durante o horário gratuito.

Se, de fato, Bolsonaro cumprir sua palavra e se filiar ao PSL em março, terá apenas 10 segundos de tempo de TV na campanha e sequer terá direito a participar dos debates. Sem alianças, será menos que um comercial de detergente na Sessão da Tarde. O ex-capitão já disse que aposta na força das redes sociais para crescer. Com quase 5 milhões de seguidores no Facebook e mais de 600 mil no Twitter, não é impensável que isso aconteça. Sobretudo, se seus apoiadores continuarem com o jogo sujo de divulgar, conscientemente, mentiras como se fossem verdades.

(PS1: justiça seja feita, a mesma pesquisa sobre a difusão de fake news no Brasil mostra que a esquerda está longe de ser santa ou vítima nessa briga, e também fomenta grupos de ódio e mentiras via web).

(PS2: toda vez que penso em retomar o kung fu, lembro-me de meu antigo mestre defendendo Bolsonaro na minha timeline e me dá uma preguiça...)