POLÍTICA

Eventual asilo político de Lula só ajudaria a ele mesmo

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A rigor, a esquerda não ganharia nada com Lula no papel de morto-vivo numa embaixada

Vendo apenas o seu lado: Lula como asilado não ajuda a renovação da esquerda (Foto Paulo Pinto/AGPT)
Vendo apenas o seu lado: Lula como asilado não ajuda a renovação da esquerda (Foto Paulo Pinto/AGPT)

A cúpula do PT já admite que Luiz Inácio Lula da Silva busque asilo político em alguma embaixada, segundo a coluna Radar da Veja. O objetivo seria transformar o ex-presidente, condenado em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá, num mártir da luta pela democracia e pela justiça social. Por meio de vídeos, o petista continuaria mobilizando os militantes, acampados solidariamente em frente ao prédio em que estivesse. Sem dúvida, trata-se de uma narrativa forte, que renderia imagens grandiloquentes para a fábula contada pelo partido. Faz parte do jogo político manipular a forma como as massas encaram a realidade. O problema é que, mais uma vez, essa estratégia só tem um vencedor: o próprio Lula. A esquerda, a rigor, não teria nada a ganhar com isso.

Se a manobra for bem-sucedida, tudo o que o PT conseguirá é canonizar um “santo” ainda em vida – algo que nem a igreja católica, no auge de seu poder, conseguiu. Mas, a partir daí, o que seria feito dele? A primeira possibilidade, sonhada por seus companheiros, é transformá-lo numa versão tupiniquim de Julian Assange, o fundador do Wikileaks que vive há anos refugiado na embaixada do Equador em Londres para escapar de uma acusação de estupro. Assange afirma que o caso é apenas uma manobra dos EUA e de governos aliados para puni-lo pela revelação de documentos sigilosos – e embaraçosos – que revelam bastidores do poder.

Cartas do cárcere

Mas Assange é uma figura que se esgota em si mesma. Não é um líder político. Lula o é, e isso faz toda a diferença. Mesmo asilado, continuará com forte influência sobre os rumos do PT e da esquerda em geral. Arranjos políticos, alianças, novas lideranças – tudo, mais cedo ou mais tarde, teria de ser abençoado por ele. Dá para entender que, desse jeito, a necessária e urgente renovação da esquerda seria protelada em nome dos interesses do petista.

A segunda possibilidade é que Lula seja gradativamente abandonado. A frequência das visitas caia, o número de acampados na frente da embaixada diminua, o peso de suas ordens se esvazie, a ponto de se tornar uma múmia viva da esquerda sindical que dominou o panorama brasileiro desde as greves no ABC paulista no fim dos anos 70. A vida seguiria em frente e, mais dia, menos dia, as decisões do PT e da esquerda estariam passando ao largo do ex-presidente. Mas Lula é um comunicador nato, e sabe que seu único trunfo é se manter em evidência. A insistência que demonstrasse em interferir em decisões estratégicas seria a medida de sua disposição de não largar o osso – ainda que isso servisse apenas para mantê-lo politicamente vivo. Seria mais digno e midiático, se enviasse cartas do cárcere, em vez de cartas da embaixada. Mas Lula é Lula...