POLÍTICA

Flávio Rocha é um Bolsonaro educado (e isto não é um elogio)

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“Eles rezam para os deuses errados” – uma frase que resume o que o candidato a presidente pelo PRB pensa da pobreza na África

Flávio Rocha é um Bolsonaro educado (e isto não é um elogio)
Fé em Deus e no mercado: Flávio Rocha desbancará Bolsonaro como representante da direita? (Foto: Divulgação/Página Oficial/Facebook)

Com o apoio do Movimento Brasil Livre (MBL), o pré-candidato do PRB à presidência, Flávio Rocha, começa a falar duro e a chamar a atenção da imprensa. Nesta semana, por exemplo, concedeu uma entrevista de meia hora à TV Folha, do Grupo Folha de S.Paulo. Em seu momento mais contundente, chamou de “terroristas” o Movimento dos Sem-Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). “A lei não pode tratar com benevolência esses terroristas”, afirmou. E o que é terrorismo na sua opinião? “Acho que é terrorismo interromper uma rua, interditar uma marginal em um dia de trabalho”, completou. Soa familiar? Sim, sim – e não é por acaso. Rocha disputa o mesmo eleitorado de extrema-direita de Jair Bolsonaro. Somente duas coisas, aparentemente, os separam: Rocha não ataca publicamente homossexuais e mulheres, nem defende torturadores, o que o torna apenas um Bolsonaro mais educado. E isto não é um elogio.

No mais, ele é um típico representante daquilo que parte da imprensa e dos estudiosos começou a chamar de “neoliberalismo regressivo”, uma ideologia que prega o liberalismo econômico e o conservadorismo nos costumes. Evangélico, dono da rede de varejo Riachuelo e com uma fortuna estimada pela revista Forbes em US$ 1,3 bilhão, é um dos maiores empregadores do país, com 40 mil funcionários. Grandes empresários são, via de regra, arredios a assumirem posições políticas publicamente, já que ninguém sabe o dia de amanhã – vai que seu desafeto político se torna presidente e você precisa de um Refis... mas Rocha fugiu à regra e foi um dos primeiros a defender, com todas as letras, o impeachment de Dilma Rousseff.

Que os orixás tenham piedade...

Não há nada de errado em alguém propor as ideias que achar mais corretas para desenvolver o Brasil. Afinal, isto é a própria base da democracia. Candidatos confrontam suas ideias e deixam que os eleitores escolham quem os convenceu. Mas há muita coisa de preocupante quando alguém que pretende governar um país inteiro, com suas diferenças, pluralidades, variedade de costumes e sincretismo religioso dá sinais claros de que não respeita diferenças. Uma extensa reportagem da revista Época, publicada no fim de março, por exemplo, mostra como Rocha é intolerante, quando se sente à vontade com seus aliados. Durante uma conversa testemunhada pelo repórter entre o presidenciável e o publicitário Roberto Justus (um de seus apoiadores), Rocha resumiu do seguinte modo o motivo pelo qual a África é o continente mais pobre do planeta: “eles rezam para os deuses errados.”

Convenhamos... um general romano destruindo um templo na Germânia e matando as pessoas que o defendem não diria outra coisa. Mas a intolerância de Rocha e o viés autoritário não param por aí. Coerente com sua cartilha conservadora, o bilionário é contra o aborto, defende o criacionismo, é a favor do porte de armas por cidadãos comuns e atribui o avanço da criminalidade, entre outros, ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Para Rocha, a desigualdade social não justifica quem puxa o gatilho. Costuma dizer que entrar para o crime é uma decisão individual.

De Bolsominion a Rochaminion?

Seu discurso tem muito potencial para atrair conservadores que relutam em aderir a Bolsonaro. Há, basicamente, dois tipos de eleitores que poderão embarcar em sua candidatura. Primeiro, aqueles que desconfiam da sinceridade de Bolsonaro, quando o ex-militar jura que se converteu ao liberalismo econômico. Segundo, os conservadores que não chegam ao ponto de elogiar torturadores da Ditadura, nem de dizer que só mulheres bonitas merecem ser estupradas – as “feias”, como a deputada federal Maria do Rosário, atacada por Bolsonaro, não teriam essa “honra”.

Em meio à eleição mais complicada e imprevisível desde a redemocratização, ainda é cedo para saber quanto Rocha poderá chamar a atenção. Seu eventual sucesso, contudo, não será um sinal de avanço do Brasil. Muito pelo contrário.