ECONOMIA

Funcionários públicos realmente ganham muito? Calma aí...

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Enquanto burocratas acumulam salários e privilégios, quem atende mesmo os brasileiros ganha mal e é desprezado

Funcionários públicos realmente ganham muito? Calma aí...

Salários altos: que tal começar procurando aqui? (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

O Banco Mundial (Bird) divulgou, nesta terça-feira (21), um detalhado estudo sobre a (má) gestão pública no Brasil. Seu diagnóstico é óbvio: o governo gasta muito e gasta mal. Até aí, não seria necessária uma junta de economistas estrangeiros para dizer aquilo que os brasileiros sentem todo santo dia, quando precisam de qualquer serviço público. Também não precisaríamos deles para compreender que, se nada for feito, algum dia faltará dinheiro para manter o essencial funcionando neste país – da compra de remédios para hospitais ao pagamento dos aposentados. A polêmica está na receita do Bird para nos recolocar nos trilhos. Entre as tradicionais recomendações de corte de gastos, está o congelamento do salário dos funcionários públicos – pelo menos, os federais. O argumento é que, na média, eles ganham 67% mais que seus pares na iniciativa privada. Pois é... se você for esperto, já pegou o problema. “Na média” significa dizer que, entre o marajá de Brasília e o professor mal remunerado, todos estão bem. Estão mesmo?

Salários nababescos na máquina pública são alvo de amor e ódio no Brasil. Elegemos até um presidente – o primeiro da Nova República – cujo maior feito foi “caçar marajás” em Alagoas. Os contribuintes adoram criticar (e, frequentemente, com razão) cifras de dois ou três dígitos nos contracheques dessa casta diferenciada e protegida. Ao mesmo tempo, conquistar um emprego público é o sonho de muitos brasileiros que se esfalfam em cursinhos preparatórios para carreiras tão ou mais concorridas, quanto os mais disputados vestibulares. Quem não gostaria de gozar de estabilidade no emprego, salário de dois dígitos, prêmios, licenças remuneradas, juros baixos nos bancos etc? Sim... é provável que, lá no fundo, você também inveje tudo isso. Se for o caso, pare de ser hipócrita e de criticar em público aquilo que deseja em particular.

Cadeia alimentar

Mas o diabo das estatísticas é que elas não contam toda a verdade. Tratar de forma monolítica a folha de pagamento pública gera tantas injustiças, quanto venerar quem ganha centenas de milhares de reais por ano com ela. Sempre acreditei que é simplista demais colocar todos os funcionários públicos no mesmo saco de barnabés. Há servidores que honram e honrarão a camisa e que ganham pouco, muito pouco, pelo que fazem. Quem são eles? Os que atendem diretamente ao público.

Ao contrário do senso comum, a máquina pública é um ecossistema cheio de hierarquias, predadores e presas. Basicamente, é possível dividi-la em duas partes. A primeira é a prestação de serviços à comunidade. É sua ponta visível: hospitais mal aparelhados que deixam pessoas morrerem em macas pelo corredor; escolas abandonadas à própria sorte; delegacias cercadas de bandidos e milícias por todos os lados; unidades básicas de saúde sem o básico para funcionar... e por aí vai. Nesses locais, trabalha-se muito, com pouquíssimos recursos, e ganha-se mal. Muito mal. Pergunte a qualquer médico recém-formado por que não quer trabalhar num hospital do Estado. Peça para que um professor da rede pública lhe mostre o holerite. Considere quanto ganha um policial iniciante.

O topo... sempre ele

A segunda parte da máquina pública opera nos bastidores. É a responsável por administrar a prestação de serviços, alocar recursos. Ela envolve tanto a gestão de impostos (arrecadação, fiscalização), quanto o planejamento e execução dos gastos. É aí que se esconde a maioria dos marajás – nessa burocracia que nunca bateu um carimbo no guichê para um brasileiro, nunca escreveu o abecedário para uma sala superlotada de uma escola caquética, nunca viu alguém implorar por socorro para um ente querido morrendo no corredor. Basta ver o quanto ganha um fiscal da Receita Federal e um professor estadual. Um assessor do Ministério da Saúde e uma terapeuta ocupacional do Hospital das Clínicas.

Quanto mais distante do atendimento direto ao público, mais alto é o salário, maiores são os benefícios e mais insensível se torna às reais necessidades dos cidadãos. Muitos andares acima do caos do atendimento público, em salas climatizadas e com bons móveis, os verdadeiros barnabés se divertem com a miséria alheia. Muitos deles acumulam cargos, salários, benefícios. Alguns vão além e, não contentes, tornam-se corruptos. Outros são jabutis, postos lá em cima por poderosos padrinhos políticos. É para eles que o Banco Mundial e os brasileiros deveriam olhar. É o salário deles que deveria ser congelado. Suas regalias, canceladas. Seus privilégios, banidos. O dinheiro que sobrar (e vai sobrar) depois dessas medidas deveria ser redistribuído pela máquina pública, começando de baixo para cima – dos servidores que superam todas as dificuldades das más condições de trabalho e de salário para atender, do melhor modo possível, os cidadãos. Esses, sim, têm espírito público.