POLÍTICA

Gilmar libera o “Palocci” do PSDB: cadê os “cidadãos de bem”?

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A desculpinha fácil, para se postar em redes sociais, é que todos os corruptos serão banidos em outubro. As pesquisas eleitorais, porém, dizem outra coisa

Olha o cidadão de bem aí, gente! O país continua mal, mas todos já "cumpriram seu dever" (Foto: Divulgação/Paraíso Tuiti)
Olha o cidadão de bem aí, gente! O país continua mal, mas todos já "cumpriram seu dever" (Foto: Divulgação/Paraíso Tuiti)

Gilmar Mendes, o libertador-geral da República, concedeu a graça da liberdade a mais uma alma: o empresário Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto e apontado pela Lava Jato como o operador de propinas do PSDB em São Paulo. Seu potencial para implodir o partido o transformaria, segundo a força-tarefa, numa espécie de Antônio Palocci tucano. Sua eficiência seria considerável: Paulo Preto é suspeito de recolher a “ninharia” de R$ 173 milhões em propinas decorrentes de contratos de empreiteiras com a prefeitura paulistana. Ao decidir pela sua soltura, Gilmar declarou em alto e bom som que a prisão era um “constrangimento ilegal” e que não havia “amparo nos fatos”. Até aí, tudo bem: é Gilmar sendo Gilmar. O que espanta é o sumiço dos “cidadãos de bem”.

Não houve choro, nem ranger de dentes. Não houve panelaços, apitaços, buzinaços. Não se viram manifestações, faixas, cartazes, avenidas interrompidas. Não se encontraram vestígios de “líderes populares” como os Kim Kataguiri da vida, mais preocupados em costurar suas candidaturas ao Congresso por partidos investigados pela Lava Jato, do que em lutar contra a corrupção. Não se registraram campanhas ou mobilizações por redes sociais, tuitaços e que tais. Tudo o que se viu foi o velho e conhecido comodismo de avestruz do brasileiro moralista médio: um militante de sofá, um manifestante de Facebook que só berra, quando se trata de atacar os “esquerdopatas” e “petralhas”.

Alguém, algum dia, estudará seriamente o bloqueio mental dos “cidadãos de bem”. À medida que o tempo passa, mais me convenço de que seus desvios cognitivos são preocupantes casos de esquizofrenia social. Talvez, sejamos o primeiro país a se submeter a uma autolobotomia política. A desculpinha fácil para postar em redes sociais é que a vingança dos “cidadãos de bem” virá em outubro, quando todos os corruptos (de esquerda, de direita, de centro) serão banidos da vida pública. As pesquisas de intenção de voto, contudo, os contradizem. Se as expectativas se comprovarem, seremos um curioso caso de eleitores que não votaram em nenhum dos candidatos que se elegeram... os mesmos que adoram nos fazer de bobos.