POLÍTICA

Greve: que tal usar o Exército para punir os intervencionistas?

Author

Se é verdade que os defensores da ditadura impedem o fim da greve dos caminhoneiros, por que não lhes dar uma amostra grátis do que recomendam para o país?

Aceitam-se voluntários: os intervencionistas podem se oferecer para treinar as tropas (Foto Tânia Rego/Agência Brasil)
Aceitam-se voluntários: os intervencionistas podem se oferecer para treinar as tropas (Foto Tânia Rego/Agência Brasil)

À medida que a segunda-feira (28) avançava, ganhava volume a desconfiança de que a greve de caminhoneiros perdeu o controle e o propósito original. A paralisação agora seria refém de defensores da “intervenção militar”, esse eufemismo para golpe e ditadura. Ninguém menos que o presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), José da Fonseca Lopes, levantou a lebre em entrevista coletiva. Em suas palavras: "Não é o caminhoneiro mais que está fazendo greve. Tem um grupo muito forte de intervencionistas aí e eu vi isso aqui em Brasília, e eles estão prendendo caminhão em tudo que é lugar." Se a denúncia for verdadeira, então é hora de o governo tomar uma atitude firme. Que tal usar o Exército para punir os intervencionistas?

Seria interessante observar como os adoradores de uma nova ditadura reagiriam a uma amostra grátis de seu próprio veneno. Afinal, entre as atribuições das Forças Armadas, está a manutenção do Estado Democrático de Direito. Se alguém tentar derrubar o governo, mesmo um chinfrim e caindo de podre como o de Michel Temer, deve ser punido. As declarações de Lopes, da Abcam, deixam pouquíssima margem de dúvida: "São pessoas que querem derrubar o governo. Não tenho nada a ver com essas pessoas nem os nossos caminhoneiros autônomos têm. Mas estão sendo usados para isso." Para comprovar o que diz, o líder do setor se comprometeu a fornecer os nomes dos intervencionistas ao Planalto.

Parasitas

Não é de hoje, que movimentos de massa atraem oportunistas de direita e de esquerda que tentam parasitá-lo a seu favor. Esta é, aliás, a maior prova da fraqueza dessas “lideranças” de ocasião. Sem condições de mobilizar ninguém por conta própria, dada a insensatez de suas fantasias de poder, esses infiltrados tumultuam a mobilização alheia, na esperança de que, por um lance de sorte (que venderiam como estratégia friamente traçada), a reverberação seja suficiente para derrubar o governante de plantão. A bola da vez são os intervencionistas, que anseiam pelos tanques nas ruas e pelos coturnos ecoando pelo asfalto.

É verdade que a política nos envergonha tanto, que apenas 56% dos brasileiros defendem que a democracia é a melhor forma de governo em qualquer situação. É verdade, também, que o Brasil é o país que menos acredita na democracia entre os latino-americanos. É mais verdade ainda que esses números são poderosos estimulantes para o delírio dos defensores de uma nova ditadura. Na era da pós-verdade, em que as emoções sobrepujam os fatos na definição das opiniões pessoais e públicas, talvez seja ingênuo imaginar que os intervencionistas se dobrarão a argumentos racionais. Talvez, ironicamente, apenas um cassetete no couro lhes mostre como seria o Brasil que tanto idealizam. E aí deles, se reclamarem...