POLÍTICA

Greve: Temer sabe que prometeu o que não devia

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Temer pendurou o fim da greve dos caminhoneiros na conta de muitos brasileiros. É só uma questão de tempo para que eles se rebelem contra essa manobra

Questão semântica: essencial, mesmo, não é o que está na faixa; para Temer, essencial era acabar com a greve (Foto: FOTO: ASCOM/SEGUP)
Questão semântica: essencial, mesmo, não é o que está na faixa; para Temer, essencial era acabar com a greve (Foto: FOTO: ASCOM/SEGUP)

Desde o fim da greve dos caminhoneiros, que paralisou o país por quase dez dias, o que mais se vê é o governo prometer que punirá severamente os postos de combustíveis que não reduzirem o preço do óleo diesel. O corte de 46 centavos por litro é o coração do acordo que encerrou a manifestação, mas envolve uma série de ovos dentro da galinha. No fundo, a estridência com que o governo vem advertindo o setor de distribuição serve apenas para nos distrair do fato principal: o presidente Michel Temer prometeu o que não devia para pôr fim à paralisação que ameaçava sua própria permanência no Planalto. Fraco, impopular e encurralado, Temer assumiu compromissos que não dependem apenas dele para serem honrados. E, quando se trata da política e da economia brasileiras, honra é um termo que desperta gargalhadas em mafiosos.

A bem da verdade, Temer não envolveu apenas os postos na história. Começou a se enrolar, quando prometeu subsidiar a política de preços da Petrobras até o fim do ano, para que o diesel permaneça congelado e não descontente os caminhoneiros de novo. Para tanto, mobilizou fundos e mundos. Da reoneração da folha de pagamento de 28 setores a mais cortes de gastos, Temer jogou tudo o que tinha e o que não tinha. Será uma questão de tempo, para que a população perceba que seu representante-mor decidiu inibir a criação de empregos formais, ao taxar novamente a folha, e piorar ainda mais os serviços públicos. Tudo para que os caminhoneiros encerrarem sua greve.

Num primeiro momento, o governo tenta nos convencer de que agiu corretamente, já que o país rumava para o caos, com a gradual escassez de bens de consumo básicos, como alimentos e combustíveis. Mas, agora, Temer está no pior dos mundos. De um lado, é certo que cortará gastos e cobrará impostos sobre a folha de pagamento para bancar sua parte no acordo, isto é, subsidiar o diesel vendido pela Petrobras. De outro, não tem a mínima certeza de que os donos dos postos reduzirão, de fato, o preço do óleo. Traduzindo: o único resultado concreto de tudo isso é que os brasileiros arcarão com o prejuízo, sem terem a contrapartida de que o diesel ficará mais barato.

Contando os minutos

Ciente do risco, o governo já anunciou que formará uma rede de fiscalização dos postos e imporá pesadas multas, de quase R$ 10 milhões, aos postos que não cortarem os preços. Será apenas uma questão de dias, para que as redes afirmem que não podem reduzir os preços, porque o valor cobrado pelas refinarias não é exatamente aquele que consta no acordo. Será, ainda, uma questão de dias, para que as refinarias acusem o governo de não pagar a diferença entre o valor efetivo e o subsidiado. Quer apostar?

Será também apenas uma questão de dias, para que os setores afetados pelos cortes de verbas protestem. Já imaginou se, para debelar a greve dos caminhoneiros, o governo armou outras potenciais paralisações, como no setor da saúde? Entidades ligadas ao setor já se manifestaram, considerando "gravíssimo" o corte de verbas para bancar o acordo. A área de educação também sofrerá baixas. Os professores federais, membros de um sindicato poderoso, assistirão a tudo de cabeça baixa? Falando claramente, a única conclusão é que Temer pendurou na conta de terceiros o fim da greve dos caminhoneiros. Mas os prejudicados não ficarão quietos. Logo, logo, eles vão acertar as contas com o presidente. As convulsões estão longe de acabar.