POLÍTICA

Huck desiste, de novo: por que o centro não acha um candidato para chamar de seu?

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Sem Huck, o centro terá de enfrentar as urnas de cara limpa – ou, no caso, muito suja. É claro que os partidos estão com medo dos eleitores

Huck desiste, de novo: por que o centro não acha um candidato para chamar de seu?

Incrível Huck: atrás dessa "renovação", vinha toda a velha política (Foto: Divulgação/Facebook)

Pela segunda vez em pouco mais de dois meses, o apresentador global Luciano Huck desistiu de disputar a presidência da República. Huck já o fizera em fins de novembro, quando publicou um extenso artigo na Folha de S.Paulo para se justificar. Os ânimos de seus voluntariosos cabos-eleitorais, contudo, se atiçaram, quando ele apareceu com destaque no Domingão do Faustão. Interpretada por uns como um teste de mercado, e por outros como um recado indireto da Globo aos presidenciáveis, a participação embalou novamente sua candidatura. Soube-se que Huck voltou a consultar gurus políticos, marqueteiros, economistas e lideranças partidárias. Aparentemente, desistiu nesta quinta-feira (15), por pressão familiar. Mas a indecisão de Huck é sintomática de algo maior: a imensa dificuldade dos partidos de centro de encontrarem um nome viável para se contrapor a Luiz Inácio Lula da Silva, pela esquerda, e a Jair Bolsonaro, pela direita. E por que há tanta dificuldade? Simples: o centro, hoje, também é parte da crise política, e não sua solução.

Primeiro, é preciso entender de que “centro” estamos falando. Em democracias maduras e sérias, o “centro” reúne os partidos e políticos moderados. Entre os mais atirados de esquerda e de direita, estende-se um grupo que serve de contrapeso a excessos ideológicos e com os quais esses extremos precisam negociar, caso assumam o governo. É bom e saudável que seja assim. Mas, no Brasil, o “centro” é outra coisa. Tais legendas e políticos vendem-se como moderados, apenas para ampliar seu cacife em negociações fisiológicas em troca de votos. Aquilo que deveria ser mérito – a prudência de discutir uma proposta de lei de modo desapaixonado – vira demérito, com as trocas de favores correndo soltas. Não é por outro motivo que muitos desses partidos estão tão ou mais enrolados na Lava Jato, quanto as grandes legendas – PT, MBD, PSDB...

Passado, esse incômodo...

Assim, não espanta a dificuldade desses partidos de se reunirem em torno de um nome que sirva de terceira via a Lula e Bolsonaro. As opções dividem-se entre quem tem telhado de vidro no trato da coisa pública, e quem é tão inexpressivo politicamente, que nem para poste serve. No primeiro caso, está o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM. Por mais que se assanhe com a ideia de suceder a Michel Temer, há muita coisa que precisa explicar, sobretudo sua relação com a Odebrecht. Basta lembrar que o apelido do deputado, nas planilhas entregues pela empreiteira à Lava Jato, é Botafogo. Já o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, enquadra-se mais no segundo caso: as pesquisas de intenção de votos lhe dão, no máximo 2%, apesar de sua exposição praticamente diária na mídia. É verdade que os adversários também podem lembrar de suas relações com a JBS, o que complica ainda mais o jogo.

Mesmo pré-candidatos mais parrudos, como o tucano Geraldo Alckmin, enfrentam problemas para se consolidar como o nome do centro por vários motivos. O mais óbvio é que, após tantos anos no governo de São Paulo, Alckmin não é, propriamente, um consenso entre os paulistas: 34% o consideram ótimo ou bom, mas 38% o acham regular, e 25%, ruim ou péssimo. Com uma popularidade tão discutível no maior colégio eleitoral do país, e sem uma forte projeção no Nordeste, Alckmin está estagnado nas pesquisas para presidente. Outro motivo é o desgaste que o PSDB sofreu ao embarcar no governo Temer, que já entrou para a história como campeão de rejeição. Acrescente-se ainda um queima-filme interno: o senador mineiro Aécio Neves, gravado pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, um dos donos da JBS. A resistência de Aécio a deixar a presidência nacional do partido e toda repercussão negativa do caso na imprensa e na opinião pública jogaram os tucanos na vala comum das relações licenciosas que empesteiam a política.

O centro está, portanto, naquela caricata situação de “se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.” Para qualquer lado que olhe, há ressalvas. Não é à toa que Luciano Huck é paparicado por tanta gente nos últimos meses. Ele é a máscara imaculada com que o centro encardido de fisiologia quer se apresentar aos eleitores. Sem ele na corrida eleitoral, o centro terá de enfrentar as urnas de cara limpa – ou, no caso, muito suja. É claro que os partidos estão com medo...