ECONOMIA

Huck, o apresentador, tem 60% de aprovação. E Huck, o político, teria quanto?

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O Brasil não é para principiantes e, em matéria de política, o apresentador global está apenas soletrando suas primeiras lições

Huck, o apresentador, tem 60% de aprovação. E Huck, o político, teria quanto?

Dá para acreditar nele? Não? E no Huck? (Foto: Divulgação/Página Oficial/Facebook)

Aí vão algumas rápidas considerações sobre a pesquisa Ipsos-Estadão divulgada nesta quinta-feira (23). A manchete do jornal foi o rápido crescimento da aprovação do apresentador Luciano Huck. Em setembro, 43% dos entrevistados o aprovavam. Na nova pesquisa, o percentual subiu para 60%. É, de longe, o nome mais bem avaliado entre os 22 propostos pela Ipsos, deixando medalhões da política e aspirantes ao Planalto lá para trás. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, conta com o aval de 43% dos brasileiros, colocando-se num distante segundo lugar. Já o deputado Jair Bolsonaro aparece com 24% de aprovação. Feitas as devidas apresentações, é preciso prestar atenção em alguns pontos.

1) Qual é o Huck que os brasileiros aprovam?

É preciso cuidado com a afobação das manchetes de jornal. Primeiro, porque a metodologia da pesquisa é ambígua. A pergunta apresentada pela Ipsos aos participantes foi: “Agora vou ler o nome de alguns políticos e gostaria de saber se o(a) senhor(a) aprova ou desaprova a maneira como eles vêm atuando no país.”

Para começar: quem disse que Luciano Huck é um político? Ele tem pretensões políticas, é paparicado por políticos, mas nem de longe disputou uma eleição ou se expôs em um debate de ideias com um adversário de peso. Logo, qual Luciano Huck a população efetivamente aprova?

A resposta mais simples e direta é: uma celebridade da televisão, cuja imagem foi cuidadosamente lapidada para agradar de adolescentes a velhinhas nas tardes de sábado. O Huck que o Brasil conhece é um jovem adulto bon-vivant, mas não porralouca, que transitou do programa de baixarias que comandava na Bandeirantes, com a Tiazinha, a Feiticeira e outros estereótipos de sonhos de adolescentes onanistas, para o jovem adulto bem-sucedido, coberto tanto de photoshop, quanto de maquiagem, e com uma leve pátina de caridade, vendida em quadros onde ajuda necessitados a reformarem casas e carros.

2) O político Luciano Huck teria 60% de aprovação?

Se entrar efetivamente na corrida presidencial, Huck correrá o risco de ver sua reputação despencar como um meteoro incendiando-se até se desintegrar com o atrito da atmosfera. Ele e o Brasil cairiam, literalmente, na real. Durante a campanha, Huck pode até se cercar de marqueteiros bem pagos e apelar para sua experiência de apresentador de TV, mas haverá momentos em que terá de se expor: nos debates com os outros candidatos; nos discursos improvisados em carros de som; nos jantares e almoços com os tubarões do mercado e as raposas do capital; nas perguntas incômodas de jornalistas. Simplesmente, é impossível manter o pancake 24 horas por dia, sete dias por semana, no rosto.

Mas, vamos supor que Huck realmente caia nas graças do eleitorado, diante do absoluto descrédito da velha política. Governar um país é muito mais complexo do que oferecer entretenimento nas tardes de sábado. Saber que música tocar para garotas bonitas rebolarem, atraindo o close das câmeras, servirá muito pouco. O que o povo achará das primeiras medidas? O que dirá, quando Huck se defrontar com problemas homéricos, como o rombo nas contas públicas, a economia patinando, 12 milhões de desempregados, a perspectiva de estourar o teto de gastos, a possibilidade real de não ter dinheiro para pagar aposentados e pensionistas?

Fora toda a negociação infernal com o Congresso, a pressão de governadores e prefeitos, a necessidade de imprimir um rumo estratégico ao país. Sem contar extenuantes filigranas da política internacional, num mundo dividido entre dois malucos: Donald Trump e Kim Jong-un, uma China cada vez mais saliente, rasteiras comerciais na OMC, o peso morto do Mercosul...

Diante de tudo isso, Huck balbuciará algumas obviedades sopradas por seus assessores. O problema é que o Brasil não é para principiantes. Em matéria de política, o apresentador global está apenas soletrando suas primeiras lições.