POLÍTICA

Huck: unir ex-comunista e neoliberal não é mérito, mas demérito (dele e do Brasil)

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Huck não é o líder de novas, arejadas e emergentes forças políticas; é apenas a fachada atrás da qual o velho fisiologismo quer se esconder

Huck: unir ex-comunista e neoliberal não é mérito, mas demérito (dele e do Brasil)

Novo figurino: Huck seria apenas a cara mais elegante da velha política (Foto: Divulgação/Face)

Bastou que o apresentador global e empresário Luciano Huck voltasse a sentir uma ruga de dúvida sobre entrar na corrida presidencial, e políticos de todos os matizes se assanharam a cortejá-lo, bem como parte da imprensa. Pouco importam as cascas de banana que o próprio Huck lançou em seu caminho até o Planalto, como o longo artigo publicado na Folha de S.Paulo, negando com todas as letras que concorrerá; nem sua defesa junto ao TSE, em que reafirma em juízo que não será candidato e que sua participação no programa do Faustão foi apenas uma manifestação cidadã. É verdade: políticos desmentem-se o tempo todo sem sequer corarem. Mas, se Huck começar sua carreira pública por essa prática reprovável, já sairá com o pé esquerdo.

Quem se entusiasma com ele aponta dois motivos: 1) ele não é político, portanto, não está contaminado pela má (e justificada) imagem da categoria; 2) ele seria o tão procurado candidato de centro, o nome da terceira via capaz de atrair os eleitores cansados do irracional e agressivo Fla-Flu entre Luiz Inácio Lula da Silva, pela esquerda, e Jair Bolsonaro, pela direita. Uma prova de sua capacidade de agregar grupos antagônicos e costurar consensos seria os apoios que reúne: de Roberto Freire, o ex-comunista que disputou a eleição presidencial de 1989 pelo antigo PCB, transformado, anos depois, no atual PPS que cobiça a filiação de Huck, ao economista ultraliberal Paulo Guedes, um dos fundadores do mitológico Banco Pactual e conselheiro econômico de Bolsonaro.

Caldeirão...

Infelizmente, nas atuais circunstâncias, esses apoios não mostram nenhum mérito de Huck, e sim seu demérito. Justiça seja feita, trata-se muito mais de um demérito do Brasil. Por que? Explico-me. É claro que se espera que, de tempos em tempos, novas lideranças surjam para renovar a política e oxigenar suas ideias e práticas. Ingênua e esperançosamente, supõe-se que os novos nomes representem uma evolução em relação aos antigos, do mesmo modo como os mamíferos sucederam os dinossauros. Em democracias maduras e saudáveis, diante de mudanças na sociedade, novas ideias são lançadas na arena pública, debatidas, buriladas, e ditam realinhamentos políticos que vão desde a aparição de novos candidatos, até a extinção e fundação de partidos. Em suma, em condições ideias de pressão e temperatura, novos candidatos emergem e ganham popularidade, porque encarnam demandas que os velhos políticos e as velhas legendas são incapazes de acomodar e atender.

Mas, Luciano Huck não é, de longe, um exemplo desse processo de amadurecimento político da sociedade brasileira. Por mais mérito e respeito que a figura pessoal do apresentador mereça, cansamos de ver boas intenções morrerem secas e esturricadas sob o inclemente sol de Brasília. Huck não é o líder máximo de uma nova geração de políticos, reunidos em uma nova legenda, com um projeto claro para o Brasil. Não está liderando uma enxurrada de candidaturas capaz de lhe dar sustentação legítima no Congresso para aprovar novas e melhores leis destinadas a recolocar o país nos trilhos sociais, econômicos, políticos etc.

Sorria, você está sendo pago

Huck é apenas um nome popular, cujos únicos méritos são sua popularidade e a imagem de bom moço. Muito de sua popularidade sequer é dele: é fruto de anos de exposição nas tardes de sábado na maior emissora de TV do país. Se até um BBB defenestrado no primeiro paredão do ano tem seus 15 minutos de fama e alguns trocados de publicidade, imagine o que ocorre com alguém como Huck. Frise-se que tais qualidades foram lapidadas deliberadamente para atender a uma necessidade prática do moço: ele vive da imagem. Líder de audiência nas tardes de sábado, precisa cultivar uma aura de bom moço descolado, do bon-vivant que sabe curtir a vida sem perder a cabeça. Sua boa imagem é apenas uma ferramenta de trabalho que maneja habilmente para vender cursos universitários, automóveis, vitaminas, alimentos processados e o que mais puder.

Repito: é meritório que Huck queira usar, agora, seu prestígio para chamar a atenção para os graves e cruéis problemas que afligem os brasileiros. Mas os políticos que o cercam, sinceramente, não estão nem aí para seus nobres ideais. Cobiçam, apenas, aquilo que perderam há tanto tempo, infeccionados que estão pela podridão dos porões políticos do país. Querem apenas sua popularidade e sua boa imagem. No que depender deles, Huck será um boneco de ventríloquo bem articulado, entretendo a plateia de eleitores com tiradas espirituosas, frases inspiradoras, alguma diversidade de fachada no ministério e a Angélica como primeira-dama. Postará fotos dos filhinhos nos jardins do Palácio da Alvorada, celebridades em churrascos de fim de semana... e só. Enquanto Huck entretém a audiência, os políticos de sempre, que o sustentarão nos bastidores, continuarão o que sabem fazer de melhor: conchavos longe dos olhos e do escrutínio público.

Ser o candidato do “centro”, neste sentido, não será um mérito de Huck. Não representará sua capacidade de aglutinar forças moderadas e devolver um pouco de juízo ao debate político. Sendo o centro o que é no Brasil, aquela geleia fisiológica e patrimonialista, formada por legendas de aluguel sem ideologia nem escrúpulos, tocar um governo sustentado por ele apenas transformará Huck naquilo que ele mais teme: o zelador de tudo o que há de errado no país. Loucura, loucura, loucura...