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Ibope de Temer: fala sério, o dobro de nada ainda é nada

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Temer ainda precisa melhorar muito para ser tão ruim, quanto os piores presidentes que já tivemos

Ibope de Temer: fala sério, o dobro de nada ainda é nada

Milagre: nem com reza braba, Temer será popular de fato (Foto: Filipe Cardoso/PMDB)

A imprensa passou a quarta-feira (20) toda tocando bumbo para a melhora da popularidade do presidente Michel Temer. Segundo a pesquisa CNI-Ibope divulgada ontem, a parcela de brasileiros que considera o governo Temer ótimo ou bom passou de 3% para 6% entre setembro e dezembro. Já os que o consideram ruim ou péssimo recuaram de 77% para 74%. Foi o bastante para que pipocassem manchetes sobre o “salto” na popularidade do peemedebista, que “dobrou” nos últimos meses. Houve quem dissesse que isso recoloca Temer como um bom cabo eleitoral em 2018, o que significa que a base aliada ficará mais mansa em troca da presença do presidente em palanques, peças publicitárias na TV e santinhos. A falha desse raciocínio é que ele não passa de uma conclusão apressada, baseada no pressuposto de que a recuperação da popularidade continuará no mesmo ritmo. E quem disse que vai? E, mesmo que seja assim, que disse que será suficiente para transformar Temer em alguém realmente bem avaliado?

É preciso muita boa vontade para enxergar, nesses números, uma reviravolta. Primeiro, deve-se entender de onde eles vêm. Para começo de conversa, a margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Assim, Temer pode estar tanto com 4% de ótimo e bom (ou seja, sua aprovação teria crescido apenas 1 ponto), quanto com 8%, quase triplicando. No último caso, o presidente poderia dar cambalhotas de alegria? Pessoalmente, talvez, mas, do ponto de vista político, significaria apenas que o atual inquilino do Planalto atingiu o mesmo “grau de ruindade”, quanto seus piores antecessores. Em outras palavras, Temer precisa melhorar muito para ser tão ruim quanto os piores presidentes que já tivemos. Francamente: como isso significa seu renascimento político?

R$ 16 bilhões de motivos

Segundo: o único estrato em que a avaliação de Temer melhorou efetivamente, acima da margem de erro, foi o de pessoas com 55 anos ou mais. Nele, a fatia de ótimo ou bom passou de 4% para 10%. Os mais velhos são mais sábios e, portanto, perceberam antes de todos o toque de Midas do presidente? Nem de longe. De novo: 10% de aprovação só o equipara aos piores momentos de José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Dilma Rousseff (veja os gráficos abaixo). Acrescente-se o fato de que os idosos tiveram um motivo pontual para ficarem de bom humor com Temer. Em outubro, o governo começou a liberar R$ 16 bilhões de contas do PIS/Pasep para idosos. Homens a partir de 65 anos e mulheres com 62 anos ou mais puderam sacar o dinheiro parado em suas contas, entre outubro e 14 de dezembro. No total, calcula-se que 8 milhões de pessoas foram beneficiados. Nada, nada, já dá para comprar um panetone no Natal e dar um desconto a Temer. Mas, uma vez gasto o dinheiro e de volta à vida normal, o bom humor dos mais velhos continuará? Dificilmente...

Ibope de Temer: fala sério, o dobro de nada ainda é nada
Ibope de Temer: fala sério, o dobro de nada ainda é nada

(Fonte: CNI-Ibope)

Além disso, há alguma incoerência em relação às áreas em que Temer é mais bem avaliado. Em primeiro lugar, está o meio ambiente, com 17% de aprovação. Oi? O presidente que liberou a exploração de uma grande área no Amazonas e foi criticado por gregos e troianos (a ponto de Gisele Bündchen abrir o Rock’n’Rio 2017 chorando pela decisão)? A pressão foi tanta, dentro e fora do Brasil, que o peemedebista recuou. Também com 17%, o combate à inflação é outro destaque. Cabem algumas ressalvas aí: a inflação recuou, sobretudo, porque os alimentos ficaram sob controle, dada as boas condições climáticas e, portanto, a safra maior. Nem Temer, nem seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, mandam em São Pedro. Logo, trata-se mais de sorte, que de mérito. Outra: parte dos preços ficou comportada, porque o consumo das famílias andou de lado. Com 12 milhões de desempregados, simplesmente não há demanda que aqueça o mercado. A educação, também com aprovação de 17%, é a última área de destaque. Basta ver os números de desempenho de nossos alunos em avaliações internacionais, como o Pisa, para perguntar: melhorou o quê?

O chão é o limite

A última e crucial pergunta é: até onde esse “salto” de popularidade de Temer pode ir? A resposta mais sincera, neste momento, é que não irá longe. Pelo menos, não o suficiente para transformar Temer num cabo eleitoral relevante em 2018, como querem seus aliados. Muito menos para viabilizar sua candidatura a mais quatro anos no Planalto, como deliram alguns. Como visto, o presidente deve parte de sua melhora a fatores episódicos, como a liberação do PIS/Pasep e a safra agrícola. No ano que vem, não haverá mais dinheiro para idosos e nada garante que São Pedro nos brindará com outra supersafra. A tendência da inflação, aliás, é subir.

Tampouco Temer tem pautas populares para aprovar no Congresso – com a reforma da Previdência em primeiro lugar. Se aprová-la, ficará de mal com a população em geral. Se não a aprovar, cairá em desgraça com investidores e o mercado. Por fim, ao virar o calendário, os políticos entrarão no módulo “eleição 2018”. Parte de seu ministério sairá para concorrer a outros cargos. Assim, seu gabinete será composto de ministros fracos e que estarão apenas preocupados em agradar seus próprios partidos. À medida que a campanha eleitoral avançar, Temer será cada vez mais atacado pelos presidenciáveis pelo que fez e não fez. Isso, naturalmente, aumentará seu desgaste. Tudo somado, continua a dúvida: por que, raios, alguém acha que os 6% de popularidade de Temer é uma revolução política?