POLÍTICA

Impasse sobre candidatura de Dilma revela a hipocrisia do PT

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Se o impeachment foi um golpe, por que o PT de Minas insiste em colocar Dilma na mesma chapa que os golpistas?

Veja bem... pelo jeito, Pimentel (dir.) acredita que o "golpe" contra Dilma é coisa do passado (Foto: Lula Marques/ Agência PT
Veja bem... pelo jeito, Pimentel (dir.) acredita que o "golpe" contra Dilma é coisa do passado (Foto: Lula Marques/ Agência PT

A candidatura de Dilma Rousseff ao Senado pelo PT de Minas Gerais está por um fio. Cassada pelo Congresso em 2016, após um tumultuado processo de impeachment, a ex-presidente foi apresentada pelo partido como a mártir da luta contra a elite e a favor da justiça social. Mas, à medida que as articulações para as eleições de outubro avançam, a máscara do PT cai e a hipocrisia dos companheiros se escancara. Como se sabe, a resistência a Dilma vem do próprio governador e correligionário Fernando Pimentel, que pretende disputar a reeleição e, para tanto, precisa do apoio de legendas “golpistas” como MDB, PP e PRB. Ressalte-se que essas siglas já integraram a base aliada de Pimentel neste primeiro mandato...

Para mantê-las, Pimentel oferece um espaço generoso em sua chapa: do cargo de vice-governador às duas vagas ao Senado, está tudo à disposição. E é aí que o bicho pega. Há três cenários possíveis. No primeiro, Dilma engole o maior sapo de sua vida e posa como candidata ao lado dos “golpistas”. Se lançaria ao Senado e ainda passaria pelo constrangimento de pedir votos para uma chapa apinhada de partidos que pediram sua cabeça no impeachment. Perplexos, os eleitores perguntariam o óbvio: mas... não era golpe? Desde 2016, o PT bombardeia diuturnamente a militância com a ladainha do golpe “dazelite” contra a “presidenta”. E o que dirão agora? Era mentirinha? Fizeram as pazes? O inimigo agora é nosso amigo?

Na segunda hipótese, Dilma sequer é escalada para disputar o Senado. As duas vagas ficariam com candidatos da aliança de Pimentel com os “golpistas”. A vantagem: não obrigaria a ex-presidente a passar pelo vexame de aparecer ao lado de MBD e assemelhados. A desvantagem: apenas confirmaria que Dilma virou um imenso e inconveniente elefante branco para o PT. Como selar alianças com os partidos que atacam em público, enquanto transformam a ex-presidente em porta-estandarte da “narrativa do golpe”? O maior problema, neste caso, é que escanteá-la significa negar-lhe o direito de se redimir nas urnas e provar, incontestavelmente, que o povo sempre esteve ao seu lado. Ora... se, conforme bradam os petistas, Dilma foi vítima de uma das maiores injustiças da história brasileira, nada melhor que permitir que ela vença de lavada em outubro para calar a boca da oposição.

Dilma, a eleitora dos golpistas

A última opção é convencer Dilma a se lançar para a Câmara. Mal-e-mal, sua popularidade residual poderia transformá-la em uma puxadora de votos. Mas eis que pepinão... lembrem-se: no Brasil, as eleições legislativas são representativas e proporcionais. Cada coligação é considerada um partido. Portanto, o total de votos da chapa é distribuído entre os candidatos das diversas legendas que a compõem como se fossem membros de uma única organização. Dilma ajudaria, assim, a eleger alguns “golpistas” para a Câmara que a cassou dois anos atrás. Irônico, não? Neste ponto, conta a lenda que Dilma, num lampejo de bom-senso, nega-se ao papel de cabo-eleitoral dos “golpistas”.

Se for verdade, mostra que, apesar dos pesares, a ex-presidente ainda mantém algum senso do ridículo. Algo que, pelo que parece, está desaparecendo do PT com a proximidade das eleições.