POLÍTICA

Impeachment de Gilmar Mendes: agora o papo é sério

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Modesto Carvalhosa, autor do impeachment de Dilma, quer Gilmar fora do STF. E você também deveria

Impeachment de Gilmar Mendes: agora o papo é sério

O jurista Modesto Carvalhosa, um dos autores do pedido que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, está perdendo a paciência com o ministro Gilmar Mendes, do STF. Há tempos, Gilmar se destaca no Supremo pela defesa incondicional de qualquer um que seja indefensável. Vaiado em aeroportos e aviões, confrontado pelo colega Luís Roberto Barroso, paparicado por réus da Lava Jato, libertador-geral da República... Gilmar irrita cada vez mais quem deseja um país justo, em que corruptos e corruptores endinheirados não escapem pelos desvãos das leis, com a ajuda amiga de ministros do STF. Irrita tanto, que Carvalhosa publicou, na edição de Veja desta semana, um artigo elencando nove evidências que justificam a cassação de Gilmar Mendes. É pedagógico. Mas, sobretudo, é urgente tirá-lo de lá.

Carvalhosa lista todo o rosário de desvios cada vez mais descarados do ministro. Há (in)justiça distribuída para todos os gostos ideológicos: PT, PSDB, MDB. Há cafunés para empresários de vários setores, como Eike Batista, ex-sétimo homem mais rico do mundo e atual investigado pela Lava Jato, e, claro, seu camarada Jacob Barata Filho, posto em liberdade três vezes por Gilmar. Há sombras sobre seus negócios fora da corte, como os conflitos de interesse envolvendo o IDP, sua escola de Direito, doações empresariais, o escritório em que sua esposa trabalha e colaboradores de Gilmar. Uma salada só...

No artigo da Veja, Carvalhosa resumiu a atuação do ministro no STF: “Gilmar julgou e, pior, beneficiou quem não poderia julgar, quando era ao menos manifestamente suspeito.” E continua: “Gilmar, sem nenhum pejo, exerceu atividade político-partidária.” É bom que se lembre também que Carvalhosa não é apenas um corneteiro de sofá. Em meados de abril, o jurista entrou, efetivamente, com um pedido de impeachment do ministro. Na ocasião, o professor aposentado da USP afirmou que os integrantes do Supremo “não podem ser confundidos com pontas de lança de organizações criminosas comandadas por políticos profissionais.”

Reincidente contumaz

Este é, no mínimo, o oitavo pedido de impeachment de Gilmar apresentado desde o ano passado. Um abaixo-assinado online também conta com mais de 2 milhões de assinaturas. Nada disso, porém, parece afetá-lo. Nos últimos tempos, seu alvo é reverter a decisão do próprio STF de permitir a prisão de condenados em segunda instância. Trata-se da manobra mais mortal contra a Lava Jato, já que a perspectiva concreta de punição levou muitos corruptos e corruptores a delatarem comparsas, revelarem provas e reembolsarem os cofres públicos pelos crimes cometidos. Se, em 2016, Gilmar era um inabalável defensor da medida, agora mostra-se um incondicional bastião da presunção de inocência até que a sentença seja transitada em julgado, isto é, não haja qualquer possibilidade de recurso.

Retirar Gilmar do Supremo seria uma medida vital para garantir que o Brasil, enfim, mudará de patamar. É claro que, para isso, será necessária uma grande coragem do próprio STF para enfrentar o corporativismo, encarar suas chagas e extirpá-las. Uma coragem que, até onde se enxerga, não existe, nem nunca existiu, naquela corte. Caberá ao povo empurrá-la para o caminho certo – ou perder, definitivamente, o respeito daqueles que se escondem atrás do poder.