POLÍTICA

Intervenção no Rio: até agora, a segurança é apenas psicológica

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Quanto mais os resultados concretos demorarem (se é que virão), mais o efeito psicológico perderá a força, para preocupação de Temer

Para carioca ver: população ainda não sentiu efeitos práticos da intervenção (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Para carioca ver: população ainda não sentiu efeitos práticos da intervenção (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Pouco mais de um mês após ser decretada pelo presidente Michel Temer, a intervenção federal na área de segurança pública do Rio de Janeiro rende os primeiros e óbvios resultados: por ora, a população o aprova, mas a percepção de que a situação melhorou é muito mais psicológica do que prática. É o que mostra uma pesquisa do Datafolha divulgada neste domingo (25). Por ela, 76% dos cariocas aprovam a intervenção, mas 71% não viram diferença alguma no nível de criminalidade. Além disso, o ceticismo quanto à sua eficácia é alta: embora 52% acreditem que a situação vai melhorar até dezembro, prazo determinado pelo decreto para seu término, outros 44% estão pessimistas, dividindo-se entre os que creem que nada vai mudar (36%) e os que esperam até mesmo uma piora (8%).

Os resultados não deixam dúvidas. Para a população, a criminalidade alcançou níveis insuportáveis e algo precisava ser feito. Era praticamente insuportável viver com medo de assaltos e acuados por bandidos e milícias nas comunidades. Mas, como a grande maioria das decisões tomadas em Brasília, a intervenção foi determinada sem planejamento, sem estratégia, nem objetivos. Num átimo, Temer correu para dar uma resposta aos problemas enfrentados pela cidade durante o Carnaval, aos constantes tiroteios na Rocinha no início do ano e, sobretudo, às declarações do governador fluminense, Luiz Fernando Pezão, dizendo que o Estado não tinha mais condições de combater as quadrilhas de traficantes e milicianos.

Sem milagres

Mal aparelhada, apodrecida pela corrupção, aliada ou coagida pelos bandidos, a polícia pouco fez desde o decreto de intervenção. Coube às forças armadas tomar a dianteira, mas nem isso adiantou. Segundo a Veja, desde 16 de fevereiro, a cidade do Rio já registra três crianças mortas, quatro arrastões, uma rebelião, 35 tiroteios e 11 militares mortos. As estatísticas são feitas com base em casos que vieram a público no período.

Some-se ao quadro o maior dos abacaxis de uma cidade sob intervenção: a execução da vereadora Marielle Franco (PSOL), há cerca de dez dias. O caso repercutiu internacionalmente, dadas as características do crime: pouco antes de ser assassinada, ela denunciou casos de violência na comunidade do Acari perpetrados por policiais da PM local. Quanto mais as autoridades demoram para localizar os culpados pelo crime (se é que vão localizar algum dia), mais desmoralizada fica a intervenção. E, quanto mais desmoralização, menor o efeito psicológico da medida entre a população – lembrando que, até agora, é essa sensação de segurança o único (e insuficiente) patrimônio da operação determinada por Temer.