POLÍTICA

Intervenção no Rio: que tal começar pela corrupção policial?

Author

General Braga Netto terá coragem de combater a bandidagem fardada? Antes que você diga sim, lembre-se: por trás dela, estão poderosos políticos corruptos...

Intervenção no Rio: que tal começar pela corrupção policial?

Explosivo: o que Braga Netto (de costas) fará com os patronos da bandidagem? (Foto: Alan Santos/PR)

A intervenção federal na área de segurança pública do Rio de Janeiro, decretada nesta sexta-feira (16) pelo presidente Michel Temer, continua causando reações binárias na maioria das pessoas, contaminadas pelo emburrecimento da polarização ideológica que nos empesteia. Desde ontem, críticas à intervenção são vistas como mimimi de esquerdopata (alguns jornalistas, por exemplo, se orgulham de tratar do tema “sem mimimi”) pela facção da Camisa Verde-Amarela.

Já a facção do Comando Vermelho-PT enxerga o preâmbulo de um Estado ditatorial que despachará mortos em sacos pretos para o asfalto. Enquanto perdemos um tempo precioso atacando caricaturas, nos esquecemos do básico: qual é, afinal, a estratégia dessa intervenção? Quais são seus objetivos práticos? Que ações concretas serão implementadas, com que metas? Pouquíssimos comentaristas encontram equilíbrio para tocar em pontos fundamentais, como a corrupção que apodreceu a polícia do Rio de Janeiro. O que o general Braga Netto, interventor designado por Temer, fará a respeito?

Esta não é, nem de longe, uma questão secundária. Afinal, as forças policiais serão a principal ferramenta de trabalho do general. Trata-se de aproximadamente 46 mil policiais militares, 10 mil policiais civis, 15 mil bombeiros, além do contingente da Defesa Civil e das forças federais à sua disposição. Seria uma tremenda injustiça imaginar que toda a corporação seja corrupta, mas é preciso entender que, mesmo que os bandidos fardados sejam minoria, fazem um estrago tremendo. De segurança de traficante a dono de boca, policiais corruptos não têm limites para impor seu poder, executar rivais e intimidar brasileiros inocentes. Por meio de milícias, dominam rotas vitais de tráfico, elegem políticos que são meras marionetes de seus interesses, e dominam postos-chave na hierarquia policial, justamente para atrapalhar a Justiça.

Sentido!

Braga Netto baterá continência para as paredes, se não combater com firmeza, desde seu primeiro minuto como chefe da segurança no Rio, os criminosos que se escondem em suas próprias fileiras. A imprensa está cansada de noticiar casos de maus policiais que traficam drogas, vendem armas e munições dos batalhões para os bandidos, integram milícias e perseguem quem tenta denunciá-los. Simplesmente, não se pode fazer uma cirurgia bem-sucedida, com instrumentos sujos, contaminados. Tudo o que conseguiremos é infectar ainda mais o paciente. É preciso esterilizá-los e evitar germes na sala de operações. O general terá o necessário pulso para eliminar décadas de apropriação das polícias por corruptos?

Antes que você, voluntariosamente, responda “sim, claro”, lembre-se de outro ponto: a corrupção policial só chegou a este nível, por causa da conivência e da aliança com corruptos de outra facção – não, não me refiro aos traficantes, mas aos políticos venais. O poder de criar e executar leis anda de mãos dadas com o poder de punir quem as desobedece, desde que o mundo é mundo.

Os meandros da violência no Rio (e no Brasil todo) são lotados de relações incestuosas entre milicianos, policiais corruptos e políticos sem-vergonhas. Acrescente-se a isso, o fato de que o Rio é um dos Estados com mais políticos presos, condenados ou investigados pela Lava Jato. É de lá que vieram figuras como Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, e Sérgio Cabral, o ex-governador que sambou em Paris com guardanapo na cabeça. Com certeza, há muito mais a ser descoberto por alguém disposto a procurar. Respondendo diretamente a Temer, Braga Netto curvará servilmente a espinha e fechará os olhos, se descobrir novos vínculos da podridão que une corrupção política graúda e a bandidagem policial, se algum aliado do presidente estiver envolvido?

Deixa de ser bobo

Basta relembrar o filme Tropa de Elite 2, que retratou assim, bem de leve, como o crime organizado é um câncer que se alastra por todos os níveis de governo – Executivo, Legislativo e, em vez de Judiciário, naquele caso, a polícia. Para quem não se lembra, o já lendário Capitão Nascimento torna-se subsecretário de Segurança do Rio, em meio aos preparativos para a eleição para deputados estaduais e governador. Lá pelas tantas, descobre que milicianos estão financiando a campanha, enquanto tocam o terror nas comunidades que dominam. Tudo isso, envolto em dramas que o atingem pessoalmente.

Sim, é cinema. Sim, não é, nem de longe, toda a realidade. Mas isso mostra como o problema é complexo demais para dividirmos simploriamente o mundo entre “porrada” e “mimimi”. Resumir a violência do Rio a um confronto entre traficantes pelo controle de morros é, no mínimo, ingenuidade. A verdadeira briga pelos morros ocorre no asfalto, entre corruptos com imunidade parlamentar e os brasileiros cansados disso tudo.

OUTRO LADO