POLÍTICA

Joaquim Barbosa: quanto ele pode desiludir os eleitores?

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Para a direita, Barbosa é esquerdista e estatista; já a esquerda não se esquece do “carrasco” do PT no mensalão... sem contar o mau humor com a imprensa e a falta de diplomacia

Cada cabeça, uma sentença: quantos eleitores verão as fraquezas de Barbosa como mérito? (Foto: Fellipe Sampaio/ SCO/ STF)
Cada cabeça, uma sentença: quantos eleitores verão as fraquezas de Barbosa como mérito? (Foto: Fellipe Sampaio/ SCO/ STF)

Desde que a última pesquisa Datafolha apontou o ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, com 8% a 10% das intenções de voto para a presidência, o recém-filiado ao PSB passou a ser visto como um nome realmente capaz de se colocar como uma alternativa à radicalização irracional que ameaça a eleição de outubro, além de superar o marasmo dos pré-candidatos de centro que apareceram até agora. É verdade que Barbosa tem muito a seu favor, como a sua origem humilde, seu esforço para subir na vida, uma certa sensibilidade social e, sobretudo, a imagem de combatente rigoroso da corrupção, consolidada durante o julgamento do mensalão, do qual participou como presidente do STF. Mas, sendo franco, o que é mérito para uns pode ser um baita demérito para outros. Além disso, Barbosa não é perfeito. Em alguns aspectos, aliás, é um prato cheio para o ataque dos rivais. A pergunta, portanto, é quanto esses defeitos e deméritos pesarão, quando os eleitores o conhecerem mais?

Comecemos pelo que não é, necessariamente, ruim, mas pode afastar parte de seu eleitorado potencial. Até o momento, o combate à corrupção é uma bandeira empunhada com gosto pelos eleitores de direita e de extrema-direita. Para essas pessoas, a corrupção tem duas raízes. A primeira é a má índole dos políticos, que não passariam de degenerados preocupados somente em assaltar o Estado, por meio de organizações criminosas. O que os levaria à segunda perna da corrupção: o próprio inchaço da máquina pública, transformada em cabide de empregos e em fonte de desvio de dinheiro público.

“Abaixo o Estado e a corrupção”

Tudo somado, tais eleitores querem alguém ao mesmo tempo honesto, e que combata a roubalheira com dois golpes: punir severamente os corruptos e corruptores, e reduzir ao máximo o tamanho do Estado. Afinal, se não há máquina pública, não há o que roubar. De quebra, haveria o benefício econômico de aliviar a dívida pública e a carga tributária, estimulando a livre iniciativa e o empreendedorismo. Não é por acaso, portanto, que o ex-militar e presidenciável do PSL, Jair Bolsonaro, foi “convertido” para o liberalismo econômico e adotou um discurso privatizador nos últimos tempos, a fim de sair de seu nicho original de eleitores. Se ficasse apenas na sua zona de conforto, pregando contra a corrupção e defendendo que bandido bom é bandido morto, Bolsonaro não atrairia os conservadores liberais que estão, até agora, com ele.

Como Joaquim Barbosa se encaixa nesse imaginário dos eleitores de direita e extrema-direita? Aí é que está... encaixa-se pela metade. Por um lado, a imagem de carrasco do PT, durante o mensalão, com seus embates ásperos com o então revisor do caso, o ministro Ricardo Lewandowski, atende perfeitamente às expectativas dessa parte da população, quanto ao combate às quadrilhas que infestam o Estado. Neste aspecto, Barbosa seria um forte concorrente de Bolsonaro – e, convenhamos, muito mais consistente. Mas, de outro, Barbosa admite em voz alta que é socialdemocrata. Acredita que o papel do Estado é impulsionar a economia e o desenvolvimento, promover justiça social e participar de setores estratégicos, como o de petróleo e o energético. Segundo o Estadão desta sexta-feira (20), durante sua primeira reunião com a cúpula do PSB, Barbosa deixou claro que defende um programa limitado de privatizações, que incluiria portos, aeroportos e rodovias, mas passaria longe de estatais que estão no centro do escândalo da Lava Jato, como a Petrobras e a Eletrobras. Isso já é o suficiente para que parte do eleitorado de direita e toda a extrema-direita passe a satanizá-lo como um “comunista-esquerdopata-estatista-comedor-de-criancinhas”... e, por tabela, desagradar o mercado, que enxerga no gigantismo do Estado brasileiro a principal fonte de seus problemas.

Novo companheiro?

Ok... ok... isso quer dizer que Barbosa ficará com o apoio da centro-esquerda e da esquerda? Nada o garante. Primeiro, porque, por ora, os partidos de centro-esquerda e de esquerda estão unidos numa frente ampla pró-Lula. É verdade que muito disso é jogo de cena para não melindrar eleitores petistas que se sentem órfãos, após seu líder ser preso pela Lava Jato, após condenação por corrupção passiva no caso do tríplex do Guarujá. Mas, sem alianças políticas, não existem palanques estaduais, nem tempo de TV. Mas tudo isso é negociável, claro.

No que tange à esquerda, o principal empecilho de Barbosa é justamente sua pecha de... carrasco do PT durante o mensalão. A ojeriza é tão grande, que, em maio de 2014, um então integrante da comissão de ética do PT defendeu que "toda a violência" seria permitida contra Barbosa, "porque não se trata de um ser humano, mas de um monstro." Até hoje, muitos petistas e eleitores de esquerda em geral não engoliram o fato de que ele, indicado pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o apresentou como um homem de origem humilde, aguerrido, que teve o mérito de superar a pobreza e o racismo para se tornar o primeiro ministro negro no STF, tenha apunhalado o partido e o cacique que o apoiaram. “Traidor” é a palavra mais leve e publicável dita por muitos petistas, quando se referem ao ex-ministro. O resto é de envergonhar gigolô. Como contraponto, pode-se pensar que seu programa econômico é mais palatável para parte da esquerda, já que alude à justiça social sem tocar em vacas sagradas, como a Petrobras.

Centro de que, mesmo?

Alguém pode argumentar que essas observações apenas reforçam o óbvio: Barbosa é um candidato de centro e é inevitável que seu programa desagrade aos extremistas de direita e de esquerda. O miolo do eleitorado, mais ponderado e pragmático, convergiria para seu nome sem muita dificuldade, diante do anonimato e da falta de empolgação da maioria dos presidenciáveis que também disputam essa faixa da população. Mas o diabo é que o centro é, justamente, o centro do problema (sem perdão do trocadilho...). A polarização atual é tão forte, que o próprio miolo da política está se esfacelando.

Pode-se rebater essa ressalva, lembrando que políticos bem-sucedidos são os que conseguem dar nó em pingo d’água: amarrar acordos, desfazer resistências, unir antigos rivais, aparar arestas, engolir sapos em nome de um bem maior etc. Mas, aí entra outro complicador: a própria personalidade de Barbosa. Seu pavio curto era celebrado, no STF, como um sinônimo de intolerância com interpretações heterodoxas da lei e dos fatos, promovidas por outros ministros apenas para livrar a cara dos réus do mensalão. Naquele tribunal e naquelas circunstâncias, seu mau humor foi interpretado pelos brasileiros como rigor no combate à corrupção. Mas, no mundo da política, para o bem ou para o mal, não se ganha nada no grito. O mesmo Estadão de hoje trouxe sinais da falta de jogo de cintura de Barbosa nessa área. Durante o encontro em Brasília, fugiu de militantes do PSB, criticou o “excesso” de jornalistas, melindrou alguns caciques ao não os reconhecer. Para vencer a eleição e comandar o país, daqui até o fim de seu hipotético mandato, Barbosa terá de fazer exatamente o contrário: tolerar o assédio de populares e militantes, apertar mãos e distribuir sorrisos, ouvir absurdos com cara de jogador de pôquer etc. Não se espera, logicamente, que seja um banana ou um populista, mas negociar e persuadir faz parte do trabalho de um presidente.

Por último, vem a relação com a opinião pública e, com ela, as dúvidas sobre como se comportará com a imprensa. Basta lembrar que Barbosa foi processado e condenado, em 2016, a pagar R$ 20 mil como indenização por danos morais ao jornalista Felipe Recondo. A sentença refere-se a um episódio ocorrido em 2013, quando ele presidia o STF e o CNJ. Na saída de uma reunião, mandou Recondo “chafurdar no lixo” e o chamou de “palhaço” na frente de outros jornalistas. Foi como chutar um formigueiro: imediatamente, a imprensa malhou os maus bofes de Barbosa. Já imaginou um candidato ao Planalto recusando-se a atender a imprensa porque acha que ela deve revirar lixo? Ou, pior ainda, um presidente da República? Se está, mesmo, disposto a disputar a eleição e comandar o Brasil pelos próximos quatro anos, Barbosa tem muito a esclarecer. Nem de longe, esta eleição está no papo.