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Luislinda Valois deveria ter a decência de renunciar ao ministério

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A ministra só sobrevive devido ao vácuo acéfalo de poder que se alastra por Brasília, e que lhe permite ficar exatamente onde está

Luislinda Valois deveria ter a decência de renunciar ao ministério

(Foto: TCE-BA/Agência Fotos Públicas)

Perdoem-me, leitores, a repetição de palavras com o título, mas é preciso dizer com todas as letras: Luislinda Valois deveria ter a decência de renunciar ao comando do Ministério dos Direitos Humanos. Empossada por Michel Temer em fevereiro deste ano, Valois caminhava para ser mais uma nulidade representando o PSDB, num governo composto por dois grupos: os que ficaram famosos por serem investigados pela Lava Jato e os anônimos figurantes. Mas Valois conseguiu a proeza de dividir os holofotes com a turma acossada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, ao exigir o pagamento acumulado de sua aposentadoria como desembargadora e como ministra – algo que alcançaria R$ 61 mil e furaria o limite constitucional para salários de servidores públicos federais.

Como vocês já sabem, para se justificar, Valois usou um argumento falacioso: ao ter seu salário de ministra cortado pela lei, estaria trabalhando “de graça” e, portanto, em condições análogas à escravidão. Para se defender, afirmou que precisava estar impecável para representar o governo – roupas, maquiagem, cabelo, alimentação... Como o teto lhe barra o recebimento integral do salário, receberia por toda essa trabalheira cerca de “apenas” R$ 2 mil. Onde está a falácia? Ora: Valois não vai ser “escravizada” por R$ 2 mil. Quando se soma sua aposentadoria como desembargadora, a ministra ainda receberá gordos R$ 37 mil por mês. É mais do que suficiente para comprar boas roupas, boas maquiagens, frequentar um bom cabeleireiro e comer em bons restaurantes. Basta lembrar outra falácia: em missões oficiais, quem paga as despesas é o contribuinte (sim, você, eu, nós todos). Caso contrário, por que o governo sempre desconversa, na hora de apresentar a polêmica prestação de contas dos cartões de crédito oficiais?

Faça o que eu faço

Nos dias seguintes à revelação, pelo Estadão, da tentativa de garantir o acúmulo de vencimentos, Valois não se fez de rogada. Afirmou que não tinha que explicar nada a ninguém. Que apenas defendeu seus direitos. Que qualquer pessoa que se sentisse explorada tinha o mesmo direito de “peticionar” (sim, foi esta a palavra usada por quem representa pessoas incapazes de lutar por seus direitos, entre outros motivos, por falta de instrução e orientação) junto aos “patrões” o pagamento justo pelos seus serviços. Ou seja: se você acha que está ganhando pouco, peça aumento ao chefe.

Não demorou para que a imprensa e parte da opinião pública lhe recordassem o óbvio: trabalho escravo é bem diferente de representar o governo por “míseros” R$ 37 mil. Além disso, onde estava a ministra, quando o governo fez aquela lambança vergonhosa com a lista suja do trabalho escravo? Por onde ela andava, na semana em que se divulgaram dados preocupantes sobre a evolução da violência no Brasil? E outras notícias sobre a dificuldade em reduzir a desigualdade social nos últimos anos? Certamente, estava ocupada demais com assuntos importantes, como defender seus próprios direitos.

Não me representa

Nesta sexta-feira (3), um grupo de 15 entidades do movimento negro divulgou uma nota conjunta, repudiando a atitude de Valois e afirmando que “a ministra não representa o povo negro, não representa as mulheres negras e nem aqueles que lutam pelo fim do racismo.” Neste sentido, ela estaria na Esplanada dos Ministérios, muito mais como um capitão do mato, do que como uma guardiã dos direitos dos mais sofridos. “A ministra é voz de um governo de privilégios e privilegiados que quer acabar com os direitos trabalhistas, com o combate ao trabalho escravo e as políticas de inclusão racial.”

Valois, contudo, sobrevive no vácuo acéfalo de poder que se alastra por Brasília. Temer e seus auxiliares mais próximos fingiram que ela não faz parte de seu governo. Ficaram quietinhos e não parecem nem um pouco dispostos a lhe puxar a orelha. Já o PSDB, ao qual é filiada, reluta em lhe censurar. A ministra, portanto, é uma batata quente que ninguém quer segurar. Justamente por isso, deixaram-na onde estava: sentadinha em seu gabinete ministerial. Se tivesse um pouco de bom-senso, renunciaria. Mas bom-senso, no Planalto, anda mais escasso do que chuva...